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Garota exemplar (filme de 2014)


A insistência do diretor David Fincher, junto à Fox, de ter Rosamund Pike como a protagonista de Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) se justifica ao fim do filme. A atriz londrina dá vida, com sua beleza fria e sua figura fantasmagórica, a mais uma heroína trágica do cinema de Fincher, a exemplo de Ripley ou Lisbeth Salander, brutalizada e desumanizada para aprender a sobreviver no mundo dos homens.

É como uma anti-heroína que Amy Dunne (Pike) se revela ao espectador no filme, que a roteirista Gillian Flynn adapta fielmente de seu próprio romance. Amy desaparece na manhã do seu quinto aniversário de casamento, na casa que divide com o marido Nick (Ben Affleck) na cidadezinha natal dele, no Missouri. À medida em que Nick vai se tornando, com os dias, o principal suspeito do sequestro (ou homicídio), ele percebe que talvez seja o verdadeiro alvo.

O filme mantém tanto a estrutura quanto as viradas do livro, e embora tenha se falado muito, durante a produção do longa, que o final poderia ser alterado, o desfecho de Garota Exemplar só faz pequenos ajustes em relação ao material original. Notadamente, Fincher estende até o fim o circo midiático em torno de Amy e Nick, para dar um fecho mais apropriado ao teatro de aparências que está no centro da trama - tanto o teatro da investigação, com a manipulação da opinião pública, quanto o teatro do casamento, com suas projeções de expectativas.

O jogo de aparências perde um pouco o vigor se o espectador já souber da principal reviravolta do livro, mas isso não tira do filme a força do seu comentário sobre os relacionamentos. É o filme mais cínico de Fincher desde Clube da Luta e, assim como o longa de 1999, é do cinismo que vem o seu potencial cômico. Ben Affleck entende perfeitamente esse potencial e cria um Nick Dunne ridículo na medida, sem cair na caricatura.

Assim como a Amy de Rosamund Pike pode ser um símbolo, na mão de um Fincher sempre em flerte com a misoginia, da Mulher Pragmática dos dias de hoje, o Nick de Ben Affleck é a síntese do homem emasculado, numa América igualmente falida, enquadrada pela câmera de Fincher em ruas desertas, em letreiros de lojas fechadas. É curioso que o diretor, tão apegado a seus filtros esverdeados, não filme tanto as cenas de exterior diurnas com essa pegada estetizante. É como se Fincher não precisasse mexer muito no que vê para deixar os EUA ainda mais desesperançosos."

In: http://omelete.uol.com.br/garota-exemplar/cinema/garota-exemplar-critica/


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