Pular para o conteúdo principal

Últimas conversas (filme de 2014)

Não só as histórias dos estudantes entrevistados, mas também o contexto desse filme dirigido por Eduardo Coutinho é trágico. O cineasta, após o segundo dia de gravação, foi assassinado a facadas pelo filho, que possuía sérios distúrbios mentais. Assim, essa obra é um legado do diretor, marcada pelo tom desesperançado.




A ideia do documentário se baseia na máxima "uma ideia na cabeça, uma câmera na mão". O cenário (constituído por uma cadeira e uma porta), o ângulo monótono de filmagem, o trabalho quase nulo com as cores, a ausência de trilhas sonoras ou legendas dão o tom do longa, que é de estrutura simples - e esta, por sua vez, esconde um tema bastante complexo.



Graças à empatia instantânea de Coutinho, os jovens entrevistados vão aos poucos revelando seus segredos e históricos familiares, permeados de histórias de violência, separação e/ou abandono dos pais, insucesso escolar, bullying, ideias de suicídio, religiosidade vista como salvação, diversidade sexual, pertencimento a diferentes tribos urbanas... São poucas as entrevistas, mas o mosaico humano criado é de uma profundidade tocante.



Muito se discute sobre os caminhos da educação brasileira sem o conhecimento da escola real, aquela que professores e alunos encaram no dia a dia. Ao contrário do conceito de que são centros divulgadores do conhecimento, os colégios públicos, muitas vezes, estão estruturados sobre bases frágeis em um contexto de violência, abandono e incompetência administrativa. Alunos e professores, que trazem carências profundas, não encontram na escola um território de acolhida - o que explica a evasão, por parte dos discentes, e a desilusão, pelos docentes. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Momo e o senhor do tempo (Michael Ende)

Michael Ende é o autor alemão de "Uma história sem fim", um enredo mágico que foi adaptado para os cinemas e ganhou uma grande legião de fãs nos anos 80 e 90. Vasculhando sua bibliografia, descobrimos que o sucesso da narrativa de Atreyu não é isolado: seu criador é um grande contador de histórias, daquelas que realmente não merecem ter fim. A garota Momo, protagonista desta trama, é um ícone da inocência que não deve ser perdida na infância - ela sabe viver seu tempo, sem se submeter às regras dos adultos (sempre tão atarefados). Seus conhecimentos não vêm da escola, mas dos ensinamentos da comunidade e da natureza; seu grande atrativo é ter o dom de escutar em um mundo em que ninguém quer se ouvir. E é com essas qualidades, tão naturais e simples, que a menina enfrenta as tramoias elaboradas pelos ladrões do tempo. Apesar do cenário fantástico e da linguagem acessível, o melhor interlocutor para esta narrativa é o adulto - principalmente aquele que já tem fi...