Pular para o conteúdo principal

Sobre a escrita (Stephen King)

Apesar de ter sido um dos autores favoritos da minha adolescência, há muito tempo não leio nada de Stephen King (lembro de ter ficado apaixonada por "O iluminado" e "Angústia", impressionada com "A coisa" e ter desistido dele ao meio da leitura de "O saco de ossos"). Pela distância de mais de dez anos desde então, posso ter julgado mal "Sobre a escrita" - que talvez seja, acima de tudo, um livro para fãs.

Boa parte da obra consiste não em teorias sobre o processo criativo, mas sim em histórias da vida de Stephen, que busca as origens de seu gosto pela leitura e pela escrita. E, como personagem principal de sua narrativa, o autor não é interessante. Sua biografia tem elementos marcantes - como a infância muito pobre, as diversas recusas de editoras -, mas o autor não consegue torná-los cativantes para o público.

Pelo fato de ser um escritor de massas, chega a ser um pouco irritante ver Stephen se vangloriando de sua capacidade de produzir muito - ele chega até a questionar autores como Harper Lee, que escreveram pouco (sem admitir que o fizeram com muito mais qualidade). O fato de os melhores livros do autor terem sido redigidos em meio a uma dependência de cocaína também foi bastante decepcionante.

Nem tudo nessa leitura é tempo perdido - há pertinência nas suas colocações, ainda que boa parte delas não vá além do mesmo. Se não é um livro indispensável, também não chega a ser de todo ruim.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...

Desolación (Gabriela Mistral)

Livro de estreia da poetisa Gabriela Mistral (que viria a ser a primeira latina a ganhar o prêmio Nobel) "Desolación" anuncia a que vem pelo título: é uma obra desoladora. É tamanha a falta de perspectiva que, ao final, há um posfácio curto da autora em que ela diz: "Deus me perdoe este livro amargo - e aqueles que sentem que a vida é doce, que me perdoem também". Com muitos elementos autobiográficos (tão típicos do gênero), há o reflexo, nos poemas, das muitas turbulências que a poeta enfrentou em seus anos de juventude. Apaixonada por um homem comprometido, viu o fim abrupto deste relacionamento quando seu par suicidou-se. Católica com ardor, enfrenta dilemas constantes entre suas crenças religiosas e as muitas desgraças que a vida lhe impõe. Ademais, escritora com sangue indígena, é vítima de preconceito tanto por sua cor quanto por sua condição de mulher. A obra é dividida em quatro partes: vida, dolor, escuela e naturaleza. As duas primeiras refletem m...