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Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (Ana Paula Maia)

Ana Paula Maia? Você, muito provavelmente, nunca ouviu falar dessa autora - que já tem quatro livros publicados no Brasil. Que já foi traduzida para o alemão, o francês e o italiano. Que se inspira em Dostoiévski e Tarantino para escrever suas histórias. Que tem no currículo competências tão diversas quanto uma especialização em Computação, o roteiro de um filme, uma peça de teatro e uma faculdade de Comunicação Social. E que, por um acaso, é mulher e negra.

O machismo é sim uma das problemáticas da literatura - recentes pesquisas mostram que mais de 70% dos escritores publicados são homens, e grande parte deles, brancos. Algumas escritoras, que recentemente foram galardonadas com prêmios importantes de literatura, não conseguem vender seus livros, pelo simples de fato de serem mulheres. Até a multimilionária escritora do Harry Potter teve de disfarçar seu sexo por meio de uma sigla para conseguir reconhecimento. Some-se a isso uma pele negra e veremos por que não se escuta falar de Ana Paula no Brasil.

O olhar do escritor branco de elite geralmente retrata a vida do homem branco de elite (confira aqui: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/7a/cb/73/7acb731f04b87e851a6116b3169c0876.jpg). Nesse contexto, uma obra que trata de gente que realiza "o trabalho sujo dos outros" é dolorosa - um soco no nosso estômago burguês bem alimentado.

Os protagonistas da obra neonaturalista de Ana Paula Maia são garis, desentupidores de fossa, destrinchadores de porcos, pedreiros. O ambiente vai muito além do clichê "retratar pobre na favela": vemos esses personagens inseridos no dia a dia burguês, realizando o trabalho que ninguém quer fazer. Levando a vida que ninguém deseja para si. Cometendo atos de barbaridade que, ainda assim, são menos nojentos que a realidade a que são submetidos a cada dia.







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