Pular para o conteúdo principal

As aventuras de Hans Staden (Monteiro Lobato)

Monteiro Lobato era um dos meus autores preferidos da infância, e, aproveitando a coleção quase completa de suas obras comprada a preço de banana nos sebos da vida, decidi dedicar-me à releitura desses livros infantis. No entanto, ainda que previsse um novo olhar sobre as histórias do Sítio do Pica-pau-amarelo, não imaginava que seria um processo tão doloroso.




Tia Nastácia é humilhada a cada momento (principalmente por Emília), o que torna muito difícil continuar sentindo simpatia pelos personagens infantis de Lobato. Confesso que, nas obras em que Nastácia não aparece, sinto um alívio na leitura - mas é temporário.

As aventuras de Hans Staden talvez tenha sido o livro que mais me impressionou na infância - e não é à toa, já que as descrições de canibalismo são para tirar o sono de qualquer criança. Ao relê-la, senti um certo conforto quando percebi que a ausência de tia Nastácia significaria talvez um controle na língua ferina e maldosa de Lobato - mas foi ledo engano. Se não destila seu ódio contra os negros, o autor não poupa, neste livro, os indígenas brasileiros de estereótipos e construções culturais distorcidas.

Há momentos de uma certa leveza - quando Dona Benta, por exemplo, mostra que comer carne humana é tão perverso quanto ingerir a carne de qualquer animal; quando alguns aspectos da cultura indígena são explicados com naturalidade, dentro do universo de suas próprias mitologias. Sempre contraditório, Lobato é mestre em morder e assoprar - ora exalta, ora abomina o indígena brasileiro. Pena que um ou outro momento de defesa não sejam suficientes para esquecer tantos ataques à nossa cultura nativa.







Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.