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Crime e castigo (filme de 1970)

Dostoiévski é um autor de que gosto muito, mas não é o meu russo preferido. No entanto, se há um aspecto em sua obra que é mais forte do que em todos os outros autores do mesmo contexto é o seu caráter perturbador. A descrição da consciência dos personagens e a polifonia, em conjunto, atuam de forma impactante sobre o leitor, que não fica imune a tantos discursos intensos e provocadores.




O livro Crime e castigo possui essa capacidade em uma larga escala, e o fato de a leitura nos fazer imaginar cada cena, cada passo de Raskólnikov é algo que nos atiça enquanto participantes de uma trama com traços de suspense.

O filme russo dos anos 70, contudo, ainda que não seja melhor que o livro (mas talvez seu complemento perfeito), consegue ser mais perturbador que o original. Tive de assisti-lo em partes (com quase 1 ano de distanciamento), tal o seu feito. Os diálogos são duros, o ambiente é sufocante, as interpretações são preciosas e sabem reconstruir o ambiente de pesadelo dos delírios do protagonista. O fato de não trazer, em seu final, a redenção de Raskólnikov e Sônia já é simbólico do tom mais sombrio da adaptação. É um filme excelente, ainda que não pretenda vê-lo novamente justamente pela sua virtude de criar tão bem um cenário tão intensamente insano. 





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