Pular para o conteúdo principal

É isto um homem? (Primo Levi)

Adiei por muito tempo a leitura de É isto um homem?, por mais que soubesse que se tratava de um livro icônico para refletir sobre o nazismo, e, além do mais, de uma obra bastante curta (cerca de 150 páginas). No entanto, apesar de sua breve extensão, é um livro muito poderoso. Durante o processo de leitura, se, por vezes, caía no sono (pelo hábito de ler no ônibus e não pela falta de interesse na narrativa), logo era assaltada por pesadelos. Por mais que Primo Levi não seja um escritor prolífico, suas descrições, pontuais, são suficientes para criar o panorama do que foi a terrível Auschwitz.




O autor conta como o seu trancafiamento talvez tenha sido até um pouco menos intenso, considerando que o fim da guerra já se aproximava e que os alemães precisavam da mão de obra judaica escravizada. Mesmo assim, não há alívios de nenhuma espécie na trama. Cada momento vivido pelos prisioneiros é marcado pela dor, pelo confinamento, pela subjugação a ordens aleatórias e autoritárias.

A pergunta intituladora parece se referir tanto ao carrasco quanto às vítimas. Como ser um homem, ainda que se espanque seu próprio vizinho e que se tenha indiferença por sofrimentos de toda a espécie, inclusive de crianças? Por outro lado, como ser um homem quando seu nome é substituído por um número, seus pertences lhe são tirados e, repentinamente, já não se pode manifestar nenhuma vontade? Há exceções marcantes a esse questionamento, como Lourenço, prisioneiro de Auschwitz extremamente altruísta, mesmo no contexto do maior dos desesperos. Contudo, em geral, o que o livro de Levi nos traz é a sensação do quão pouco somos humanos em um cenário de guerra.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...