Pular para o conteúdo principal

Outros jeitos de usar a boca (Rupi Kaur)

Poesia pode ser best-seller? O livro da poeta canadense (de família indiana) Rupi Kaur demonstra que sim - afinal, foram mais de 40 semanas na lista dos mais vendidos, e isso apenas no EUA. No entanto, dado o inusitado da situação, fica a pergunta: o que fez este conjunto de poemas tão diferente de seus pares, a ponto de atingir tal popularidade?

Em uma análise breve, poderíamos considerar a globalidade do discurso de Kaur: entre indiana e canadense, Ocidente e Oriente, elitizada e popular. Com braços de polvo, que englobam diferentes culturas, discursos, apelos, sua poesia dá voz a muitos - ao contrário, talvez, da poesia tradicional, centrada na voz de um eu lírico que nem sempre compartilha seu discurso com o leitor (muitas vezes, apenas o quer como espectador).

Outro ponto que torna os poemas mais acessíveis é a linguagem, que carrega a síntese e a intensidade do gênero poesia mesclados a algo novo. Não se trata apenas do coloquialismo; é um despojamento pleno, que, muitas vezes, recorda memes de internet. Assim, nem sempre a qualidade se mantém ao longo dos versos - alguns poemas são triviais demais, de fraco impacto. No entanto, de forma geral, o que Rupi Kaur consegue elaborar com poucos elementos, se não é perfeito, é surpreendente.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Momo e o senhor do tempo (Michael Ende)

Michael Ende é o autor alemão de "Uma história sem fim", um enredo mágico que foi adaptado para os cinemas e ganhou uma grande legião de fãs nos anos 80 e 90. Vasculhando sua bibliografia, descobrimos que o sucesso da narrativa de Atreyu não é isolado: seu criador é um grande contador de histórias, daquelas que realmente não merecem ter fim. A garota Momo, protagonista desta trama, é um ícone da inocência que não deve ser perdida na infância - ela sabe viver seu tempo, sem se submeter às regras dos adultos (sempre tão atarefados). Seus conhecimentos não vêm da escola, mas dos ensinamentos da comunidade e da natureza; seu grande atrativo é ter o dom de escutar em um mundo em que ninguém quer se ouvir. E é com essas qualidades, tão naturais e simples, que a menina enfrenta as tramoias elaboradas pelos ladrões do tempo. Apesar do cenário fantástico e da linguagem acessível, o melhor interlocutor para esta narrativa é o adulto - principalmente aquele que já tem fi...