Pular para o conteúdo principal

O filme da minha vida (filme de 2017)

Apenas o fato de ir ao guichê do cinema e pedir um ingresso para "o filme da minha vida" já é uma prerrogativa da amorosa metalinguagem deste excelente (se não o melhor) filme brasileiro, dirigido por um maduro e poético Selton Mello.

O trailer, de pouco mais de 2 minutos, já é o suficiente para dar uma amostra da incrível fotografia desta obra. Inspirado em um livro do chileno Antonio Skármeta (também autor da história por trás de "O carteiro e o poeta"), o longa capta captura belos elementos da linguagem literária e os transpõe para a tela, transformando tudo em uma deliciosa narrativa, plena em poesia e lirismo.

Longe dos esterótipos do cinema brasileiro (pouca roupa, muito calor, palavrões contabilizados por minuto, espetacularização da violência), o filme consegue atingir aquela rara camada de universalidade particular - revela uma realidade que é nossa, mas que pode ser lida por muitas culturas.

Talvez esta distância dos clichês nacionais esteja relacionada à própria cultura da obra, que retrata uma região de fronteira entre o sul do Brasil e os países vizinhos, entre o português e o espanhol, entre a vida no campo e na cidade. Além disso, a presença forte de Vincent Cassel como um dos personagens principais amplia as possibilidades do enredo - são diferentes línguas, sotaques, vivências em uma só trama, personagens de culturas múltiplas tentando construir uma só história.

Só a fotografia e a trilha musical seriam o suficiente para fazer deste um grande filme. A direção de Selton é tão magnífica que a impressão que se tem é a de que os intérpretes mal precisam se preocupar com a atuação - afinal, a precisão poética de cada take já parece dar conta, por si, de criar todas as polissemias necessárias. No entanto, a obra ainda tem o grande trunfo de contar com uma reviravolta significativa no enredo, enchendo o espectador de surpresa, expectativa e prazer.

É, se não o melhor filme da vida, no mínimo uma joia rara dentre o cinema brasileiro. Os tempos são difíceis, mas a cultura resiste - e vem gerando bons frutos.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.