Pular para o conteúdo principal

Poesia sem fim (filme de 2017)

O que 2017 me trouxe de bons filmes também me legou de estranhamento, certos choques e o abandono de minha zona de conforto enquanto espectadora. Algumas das melhores produções a que assisti neste ano tiveram esse efeito ainda mais intensificado, como foi o caso de "Poesia sem fim". Desabituada à linguagem surrealista do diretor Jodorowsky, durante a exibição da obra senti um incômodo muito maior do que o prazer estético. No entanto, foi um filme que ficou gravado dentro de mim, crescendo em significados e se expandindo em possibilidades. Ao fim de uma experiência de surpresa e rejeição, se transformou em uma referência afetiva.

Não é um filme para desavisados, portanto. Todavia, se estivermos abertos à proposta que se oferece já no título - poesia sem fim, polissemia sem restrições - podemos ir, aos poucos, digerindo o longa chileno. E ao final, diante dos créditos, ao percebermos que são os próprios filhos do diretor que interpretam o papel de seu pai em diferentes fases da vida, ganhamos uma grata surpresa.

"Poesia sem fim" é o legado de uma vida, o filme que (provavelmente) fecha a carreira do cineasta latino. Estruturado de forma biográfica, revela como o seu protagonista envolveu-se com o mundo da arte e foi dominado por ela. Lido enquanto testamento e declaração de amor à arte, é uma produção tocante, exemplar. As cenas finais são especialmente marcantes, e conseguem instigar até o espectador mais desconfiado - afinal, é um filme sobre a vida em toda a sua plenitude.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.