Pular para o conteúdo principal

Che Guevara para meninos e meninas (Nadia Fink e Pitu Saá)

A Coleção Antiprincesas e Anti-heróis da Editora Chirimbote é uma pequena revolução dentro de um dos mercados editoriais mais tabus que temos: o de livros voltados para crianças. Com belas ilustrações e um texto cativante, são contadas as histórias de ícones da América Latina, apresentando aos pequenos um tipo de valentia muito mais real e valorosa que a dos mocinhos de capa esvoaçante e sunga por cima da calça.

Assim como na obra voltada para Juana Azurduy, este é um livro que narra a existência de um guerreiro, o que traz uma série de questionamentos: até que ponto, afinal, suavizar a vida de quem teve de lutar, matar - e por vezes oprimir - em nome de um ideal maior? Acredito que talvez um recorte menor da biografia do Che poderia dar conta de apresentar sua história às crianças sem maiores danos. 

Por mais que seja uma grande fã do projeto, acredito que crianças precisam lidar com questionamentos e problematizações - senão, caímos no risco de reproduzir os mesmos modelos da literatura infantojuvenil politicamente correta. Faltou um pouco de desconstrução aqui. Além disso, a mudança de linguagem (agora com a incorporação de gêneros para todo e toda e qualquer adjetivo) deixa a leitura cansativa, mesmo para os pequenos. Na tentativa talvez de agradar a reivindicações de alguns setores, a coleção acaba comprometendo o seu objetivo principal - o de contar uma boa história.








Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Momo e o senhor do tempo (Michael Ende)

Michael Ende é o autor alemão de "Uma história sem fim", um enredo mágico que foi adaptado para os cinemas e ganhou uma grande legião de fãs nos anos 80 e 90. Vasculhando sua bibliografia, descobrimos que o sucesso da narrativa de Atreyu não é isolado: seu criador é um grande contador de histórias, daquelas que realmente não merecem ter fim. A garota Momo, protagonista desta trama, é um ícone da inocência que não deve ser perdida na infância - ela sabe viver seu tempo, sem se submeter às regras dos adultos (sempre tão atarefados). Seus conhecimentos não vêm da escola, mas dos ensinamentos da comunidade e da natureza; seu grande atrativo é ter o dom de escutar em um mundo em que ninguém quer se ouvir. E é com essas qualidades, tão naturais e simples, que a menina enfrenta as tramoias elaboradas pelos ladrões do tempo. Apesar do cenário fantástico e da linguagem acessível, o melhor interlocutor para esta narrativa é o adulto - principalmente aquele que já tem fi...