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O deserto dos tártaros (Dino Buzzati)

"O deserto dos tártaros" é uma obra sobre a vida que poderia ter sido e não foi. Espécie de romance de formação, ainda que acompanhemos seu protagonista apenas na fase adulta, o livro trata das expectativas continuamente frustradas pela maturidade. Não há, contudo, ironia ou amargura nesse relato - o que predomina é o tom de uma melancolia resignada, de uma esperança inútil.

O tenente Drogo, personagem em torno da qual se constrói o enredo, é convocado para servir em um forte na região fronteiriça da Itália. O cenário de montanhas contornadas por um deserto diz muito sobre os altos sonhos de Drogo, que terminam ao rés-do-chão. Anos se passam enquanto o protagonista, vivenciando um cotidiano burocrático e sem sentido, espera por uma guerra, o grande momento no qual irá brilhar.

A inocência de Drogo somada ao desfecho brutal da obra me lembrou muito o nosso "A hora da estrela", de Clarice. A grande diferença entre Drogo e Macabéa é o peso do tempo, que faz o protagonista de "O deserto dos tártaros" se encurvar à espera da sua ínfima glória. E, assim como em Lispector, a linguagem de Dino Buzzati é absolutamente poética, transformando a banalidade da existência de seu personagem em um ato magistral de escrita.


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