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A casa do céu (Amanda Lindhout)

Apesar de já saber, antes da leitura, que se tratava de um livro sobre o cativeiro de uma jornalista canadense na Somália, não fazia ideia de que iria encontrar, na obra, um relato de viagem tão fascinante.  Amanda Lindhout, nos primeiros capítulos, traça uma breve autobiografia, procurando entender (ao mesmo tempo que justifica para o leitor) de onde veio a sua vontade de conhecer o mundo. A autora volta à infância, cheia de traumas, para buscar as origens do seu escapismo: primeiro nas páginas da National Geographic e, após os primeiros empregos, em passagens de avião para destinos exóticos e surpreendentes. Sem ter feito nenhuma faculdade até então, a canadense transformou seu conhecimento de mundo em trampolim para uma iniciante carreira na fotografia e no jornalismo. No entanto, por ser rechaçada nas panelinhas dos jornalistas sérios e diplomados, decide desbravar um território ao qual ninguém vai e do qual poucas notícias chegam: a Somália. Ao longo do seu traum...

A Condessa Sangrenta (Alejandra Pizarnik)

Alejandra Pizarnik recolhe uma série de dados históricos para compor um relato das crueldades de uma condessa russa, responsável pela morte de cerca de 650 moças. Aliás, não só morte: o livro descreve como cada uma dessas meninas foi torturada até o extremo e os variados métodos para obter um falecimento lento e doloroso. É um livro de cerca de 50 páginas, mas de revirar o estômago. É ricamente ilustrado; entretanto, nem a edição primorosa e nem o fato de ser obra de uma poeta argentina famosa fazem da obra algo literário. Trata-se apenas de um relato mórbido - algo como um Cidade Alerta da Rússia de 300 anos atrás.

Cadê você, Bernadette? (Maria Semple)

Apesar de não ser muito o meu estilo de livro, não dá para negar que "Cadê você, Bernadette?" é dono de uma linguagem ágil, cativante - o tipo de obra ideal para passar o tempo, em uma fila de espera ou em meio ao trânsito. Não é um enredo que exige muito do leitor, mas nem por isso deixa de ser uma história interessante (até certo ponto). A protagonista, Bernadette, é muito bem caracterizada e responsável, em grande parte, pelos pontos positivos do livro. Trata-se de uma mulher de meia-idade, um tanto frustrada profissionalmente, que resolve seus problemas com sarcasmo e algumas mentiras cabeludas. Dona de vários complexos (sendo o principal a falta de vontade de conviver socialmente), a personagem acaba sendo muito engraçada, já que boa parte da narrativa (quase epistolar) é contada sob seu ponto de vista. Outro aspecto que me interessou na obra é a descrição de uma viagem à Antártida, já que relatos de viagem sempre me atraem. No entanto, apesar dos pontos pos...

Onde vivem os monstros (filme de 2009)

Já havia escutado falarem muito bem ou extremamente mal do filme, com doses similares de amor ou ódio. O mesmo se aplicava ao livro, pelo qual não morri de amores: apesar de bem ilustrado, não vi muito potencial no enredo. Ao assistir ao filme, com baixas expectativas, fui surpreendida positivamente. Ainda que não seja minha história infantil preferida, gosto do tom mais intimista da trama, que busca mostrar os conflitos de um garoto em meio às mudanças de seu contexto familiar. O trabalho de edição é primoroso, com a criação de monstros verossímeis (sem cara de animação de videogame) em um cenário encantador. Além do mais, o diretor soube desenvolver bem a história, considerando que esta se baseia em um livro bastante curto, quase sem falas. O resultado é uma obra de bom gosto, que contraria a máxima de o livro é sempre melhor do que o filme.

Os miseráveis (adaptação de Luc Lefort)

Nunca tinha visto uma adaptação de um livro pela metade. Luc Lefort reconta a história de Jean Valjean apenas até o ingresso de Cosette no convento e adianta a revelação das últimas páginas da obra de Victor Hugo (de que Fantine é a mãe da menina) apenas para conseguir dar um desfecho ao seu reconto forçado do clássico francês. Não trata-se de uma adaptação, mas de uma outra história, moldada ao bel-prazer de seu autor. Em vez de adaptação, seria mais justo que a capa da obra afirmasse que é apenas livremente inspirada em Les Misérables. Além disso, apesar de ser uma obra voltada a crianças, as ilustrações são medonhas, o que não condiz com o público-alvo.

Os miseráveis - adaptação de Walcyr Carrasco

Apesar de que qualquer tentativa de adaptar "Os miseráveis" acabe caindo na ideia de resumo, uma vez que a obra original é bastante extensa, o reconto de Walcyr Carrasco é interessante. O adaptador/tradutor, ao invés de facilitar a obra para o jovem leitor, prefere trabalhar com glossário ao pé da página, o que é bastante proveitoso para formar leitores mais perspicazes, enriquecendo seu vocabulário e contextualizando o enredo aos poucos. A parte histórica deixou a desejar, já que o foco parece ser mais as relações familiares de Jean Valjean, Cosette e Marius. De qualquer forma, para a pouca extensão da obra, seria difícil um livro sem falhas.

Os miseráveis (Victor Hugo)

É muito difícil não se deixar agradar pela leitura de "Os miseráveis" - nas pouco mais de 1500 páginas do livro, algum trecho deve conseguir cativar o leitor, por mais diverso que seja o público receptor deste romance ao longo dos séculos. São tantos os personagens, situações e contextos descritos no livro que é difícil não sentir empatia por alguma faceta do grande cenário humano desenhado por Victor Hugo. O primeiro que se deve saber, contudo, antes de começar a leitura, é que trata-se de um romance com forte cunho historiográfico. Além de acompanhar as intrigas da vida de Jean Valjean, Javert, Cosette, Fantine, o leitor será informado sobre toda a situação política da França (especialmente em Paris) alguns anos após a Revolução Francesa. Uma vez que o autor escreve aos seus contemporâneos, um pouco de pesquisa histórica antes da leitura ajudará a entender não só o contexto, mas as opiniões políticas do narrador, indispensáveis para compreender o desenrolar da trama....