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The Florida Project (filme de 2017)

Se os filmes hollywoodianos contam com um bem conhecido roteiro pronto, não é a aura intelectualizada do Cannes que abstém os seus longas premiados a também se apoiarem em uma muleta narrativa. Para mim, esse recurso pré-pronto fica bastante visível com a seguinte junção de elementos: nenhum fato em destaque no enredo, cenas de conversas cotidianas nas quais se revelam os problemas dos personagens, um cenário que ambiente seus dramas. Em "The Florida Project", apesar das atuações excelentes (especialmente das crianças), não há muito de novo, uma vez que se entenda as metáforas e camadas de contraposições que o longa oferece. A ideia de compor os arredores da Disney como um lugar de infâncias degradadas é interessante, mas por si só não instiga o suficiente.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (filme de 2021)

A proposta de marketing por trás da história de um herói chinês da Marvel é bastante clara. Considerando esse aspecto, o que é mais louvável no filme é o esforço mínimo para manter alguma ligação com a cultura homenageada, como: cenas relativamente longas de diálogos em mandarim; efeitos especiais que lembram a estética do Clã das adagas voadoras , por exemplo; algumas referências a aspectos culturais orientais (não necessariamente chineses). Fora isso, os personagens não conseguem cativar pelos diálogos (mas, para mim, essa é uma tônica geral dos filmes da Marvel). E, ainda segundo o meu gosto pessoal, tem lutinha demais.   

Não basta dizer não (Naomi Klein)

Escrito no fulgor das eleições que colocaram Trump na presidência dos Estados Unidos, o livro não resistiu muito bem à passagem do tempo – ainda que essa sensação anacrônica ocorra principalmente no início da obra, mais focado em apresentar o contexto que deu tanto poder a quem não tinha nenhuma experiência prévia na política. Muitas das piores previsões de Klein tampouco se confirmaram, o que talvez demonstre que precisamos ter uma dose de confiança maior no mundo (mesmo que o estado caótico em que nos encontramos sugira o contrário). Conforme sua análise avança, a autora se detém mais acuradamente na teoria do choque, tema de pesquisa já explicitado anteriormente em outros livros. Esse é talvez o ponto em que a escrita melhor resista à passagem do tempo, ao colocar os fatos em uma perspectiva histórica mais ampla e universal.

The Illustrated Book of Sayings (Ella Frances Sanders)

Uma das minhas diversões ao ler Lost in Translation , da mesma autora, foi pensar em palavras equivalentes aos supostos termos intraduzíveis listados na publicação. Nesta nova obra de Ella Sanders, que coleta expressões idiomáticas, o trabalho de reconhecer o próximo pela alteridade é ainda mais produtivo. Várias das expressões que encontramos ao longo da obra têm correspondentes próximos (ou mesmo diretos) na língua portuguesa. Resgatar esses parentescos revela muito da história do idioma e de como ele se fez de tantas falas e culturas distintas.

Old (filme de 2021)

Quando M. Night Shyamalan baseia seus enredos nas neuras e medos de seus protagonistas, acaba criando obras envolventes, como O sexto sentido ou Fragmentado . Contudo, quando o terror se centra exclusivamente no que é sobrenatural... por vezes, fica difícil de engolir. Em Old , por exemplo, o resultado é quase risível. A proposta é interessante, mas deixa-se levar por linhas tão extremas que tudo fica hiperbólico. Além disso, até atores bons (como Gael) ficam restritos a poucas linhas de fala, pessimamente articuladas. Enfim: uma boa ideia, mas parcamente desenvolvida.  

Ciranda de pedra (Lygia Fagundes Telles)

Talvez vinte anos tenham se passado desde minha primeira leitura desta obra – e, ainda que não tenha se tornado então um livro preferido, ainda trazia muitas das cenas e personagens bem delineados na minha memória. Em Ciranda de pedra , definitivamente Lygia F. Telles não constrói personagens admiráveis... mas, de certa forma, o faz inesquecíveis. Um dos pontos que mais me havia incomodado anteriormente e que agora consigo formular melhor é o quanto o desenvolvimento dos jovens adultos, no enredo, passa necessariamente pela sexualidade. Não há muito espaço para outras formas de se relacionar amorosa e corporalmente com o outro, ainda que Lygia seja ousada no tratamento do tema lésbico, dada a época em que o romance foi escrito. Mesmo tendo como protagonista uma garota irresponsável e racista, é uma trama que cativa o leitor. Há algo do tom da série Flea Bag  aqui: uma personagem que tem sim um passado difícil, mas que parece cada vez mais querer se machucar com a própria história....

Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela (Werner Holzwarth & Wolf Erlbruch)

Uma parte dos estudos freudianos passa por estudar a relação da criança com as próprias fezes – bem a grosso modo, um pequeno que não se entende com seu cocô pode crescer um adulto bastante mal resolvido. Esta preciosidade de livro infantil dá conta, com leveza e graça, desse e de outros assuntos que geralmente não descem bem. Além de tudo, tem um humor divertidíssimo e trabalha muito bem as relações com a natureza.