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Vidas em fuga (filme de 1960)

Com um pouco de atenção, podemos observar que a influência dos clássicos greco-romanos se mantém até hoje. Desde os oradores de milênios atrás até as tecnologias mais avançadas de produção cinematográfica, é como se sempre, de alguma maneira, estivéssemos contando as mesmas histórias. Talvez porque nada de novo se cria sobre a Terra; talvez porque ainda não tenhamos apreendido os significados plenos dessas narrativas primordiais. "Vidas em fuga" é um reconto da descida de Orfeu aos ínferos em busca da mulher amada - mas com o toque do teatro magistral de Tennessee Williams. Protagonizado por Marlon Brando (em uma atuação excepcional), o músico e garoto-problema em que se centra a narrativa é alguém sem lugar definido no mundo, não casualmente apelidado de "Pele de Cobra". Igualmente escorregadio e mutável, o personagem é uma fonte de surpresas a cada cena - não pelo exagero, mas sim pela circularidade e amplitude do seu caráter. A mulher "resgatada...

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Oliver Sacks)

Ainda que o título do livro seja delicioso e gere a imediata curiosidade do leitor, a desconfiança em se ler uma obra da área médica sempre é grande - como leitora, me assustava com a possibilidade de termos técnicos impronunciáveis e relatos exageradamente céticos, exatos, reprodutores de verdades inquestionáveis da Ciência. E como é maravilhoso encontrar um autor que desmente todos esses (e outros) preconceitos! A escrita de Oliver Sacks é viciante. E, ainda que seja leiga na área, o autor não parece deixar a desejar no quesito metodológico. Comparado por muitos a Freud, por seus relatos de caso que não omitem a personalidade do paciente, Sacks advoga em nome de uma ciência mais humana, que enxergue o paciente em sua complexidade e não o reduza a efeitos de uma enfermidade. O caso que intitula a obra é apenas um dos muitos narrados pelo neurologista. Para aqueles que amam uma boa narrativa, é incrível perceber o quanto a mente humana é capaz de criar histórias mais profundas e su...

Humano (filme de 2013)

A ideia da vida como viagem é um tópos de inúmeras culturas e épocas. E, se estamos no mundo a passeio, nada melhor que uma longa caminhada para repensar os motivos da existência, na busca de respostas - ou, ao menos, de boas indagações. "Humano" retrata uma trilha nos Andes de um jovem argentino ao lado de um sábio da cultura indígena Saqra. O filme é uma tentativa de mostrar as 200 perguntas feitas pelo diretor/protagonista do longa ao seu guru espiritual. Ainda que seja, em princípio, um walk movie , as paisagens na tela não são o ponto principal de encanto (apesar de serem cenários lindos, os recursos técnicos para mostrar os diferentes lugares são insuficientes). O grande destaque são os diálogos entre esses dois humanos, que guiam toda a linha da história em busca de revelações e descobertas.  Trata-se de um filme filosófico, intimista e extremamente rico ao nos colocar em contato com a cultura ancestral dos indígenas. É uma excelente introdução ao misticismo/sabe...

Cartas extraordinárias (Org. Shaun Usher)

Todos temos curiosidade pela correspondência alheia - seja pelo vazamento de arquivos confidenciais, a la WikiLeaks, ou por bisbilhotar mensagens via celular. Restringindo seu escopo preferencialmente às cartas manuscritas, ainda assim esta antologia consegue satisfazer a indiscrição de gregos e troianos. A diversidade de temas e autores se, por um lado, pode tornar o livro bem desigual, por outro garante a identificação de todo e qualquer leitor. Há desde a carta de Jack, o estripador, relatando o quanto se deliciou com a carne de sua vítima, até uma receita de scones  que a rainha da Inglaterra havia prometido ao presidente dos Estados Unidos. No meio dessa variedade, muitas cartas emocionam (como os bilhetes de suicídio), fazem rir, aquecem o coração. É difícil não sentir empatia, ainda que ela não seja contínua e nem se aplique a toda a seleção. A edição, com muitos fac-símiles , ajuda a construir a ideia de invasão de privacidade que, no fundo, é o que anima o leitor de ca...

A vida é bela (filme de 1998)

Desde o título, "A vida é bela" é um filme amoroso. Os personagens são construídos para serem cativantes, reunindo em si todos os elementos que causam a simpatia imediata do espectador: o humor leve do pai, a inocência da criança, a entrega e o sacrifício da mãe. Inscritos no gênero da comédia, esses protagonistas parecem mais verossímeis, e os maniqueísmos são relevados em função do gênero. Afinal, é uma trama feita para encantar - uma espécie de conto de fadas sobre o nazi-fascismo. Ainda que, como espectadora, tenha me deixado levar pela história comovente representada, algumas reflexões mais sérias pipocaram durante a exibição. Não consigo avaliar até que ponto concordo ou não com as escolhas ideológicas do filme. Ainda que seja senso comum que todas as histórias cruéis sobre a Segunda Guerra já foram narradas, a verdade é outra. Evitamos o lado real e mais desumano dos crimes perpetrados nessa época em prol de relatos comoventes e de superação. E tanto já nos esquecemo...

Gratidão (Oliver Sacks)

Em tempos de informações compartimentadas, é difícil encontrar ícones que sejam admirados, na mesma proporção, em campos diferentes do conhecimento. Este é o caso de Oliver Sacks, neurologista estadunidense que soube adotar um discurso mais humano ao discorrer sobre a sua ciência. Comparado por muitos a Freud, por dar nome, identidade e reconhecer cada um de seus pacientes como um ser único, o autor vai além da linha de uma "ciência dura", criando intertextualidades enriquecedoras. Se esta verdade já se aplica a seus estudos de caso, mais ainda se intensifica quando o analisado é ele próprio. Este é o caso de "Gratidão", livro de textos curtos em agradecimento à vida que se esvai. Diagnosticado com câncer, Sacks compõe uma série de artigos pequenos, porém intensos, de reflexão sobre o seu ser e estar no mundo. Não são textos melancólicos, mas são extremamente tocantes. Como se já não bastasse a situação de defrontar-se à morte para nos comover, o escritor po...

A mulher mais odiada da América (filme de 2017)

O título pomposo do filme é uma referência real à fama de Madalyn Murray O'Hair, fundadora da sociedade ateísta ( American Atheists ) nos Estados Unidos. Aliás, as pontes com a realidade não param por aí; a obra tem cunho biográfico e pretende resgatar um pouco da história desta figura verdadeiramente iconoclasta. Narrada com flashbacks , a trama principal gira em torno do sequestro da protagonista por um de seus ex-funcionários. Por ser muito atrevida, desenvolta, a personagem por vezes nos faz esquecer que acompanhamos uma situação de encarceramento e violência - o que torna o desenlace muito surpreendente. Como documento histórico, contudo, a narrativa tem falhas. Em uma busca rápida na internet, consegui desmentir muitas das informações veiculadas na trama. Houve uma espécie de edição dos fatos para que coubessem em um modelo de filme de 1h30, padrão Netflix. Ainda assim, é uma obra capaz de estimular a reflexão para além do binômio ateístas x cristãos. Um dos pon...