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San Paolo (Vincenzo Scarpellini)

Agarrei este livro num sebo pensando em uma proposta didática de escrevivência da cidade. O que seria ideia de aula acabou ficando na gaveta, fazendo a leitura sem compromisso ganhar ainda mais em qualidade. Em um acaso, "San Paolo" preencheu duas das minhas buscas recentes em literarura: narrativas curtas e relatos de viagem. Ainda que seja escrito e ilustrado por quem não está só de passagem por Sampa, há um olhar para o novo em cada página. Tem um jeito bonito de contar a cidade e suas dores, cada imagem costurada a um conto de poucas linhas. É a brevidade da poesia para narrar cada história entre a Ipiranga e a São João.

Malas mujeres (María Hesse)

​Para quem está acostumado com a concepção cristã de mundo - em que as mulheres são a origem de todo o mal -, o mote do livro de María Hesse não soa desconhecido. Afinal, a proposta aqui é fazer uma historiografia da maldade feminina... ou, melhor, da maldade de quem alimenta as fogueiras há tanto tempo com a dita carne de bruxa. Comparado com outros livros da autora, "Malas mujeres" não é o meu preferido. Talvez seja porque já conhecia de antemão muitas das histórias contadas, ainda que o traço de Hesse as humanize de forma ainda mais potente.

​Cordéis: Patativa do Assaré

​ Com uma introdução que dá conta dos principais elementos da biografia e da poética de Patativa, o livro traz apenas 5 poemas selecionados. É quase um tira-gosto, já que a apresentação mais aprofundada cria a vontade de conhecermos mais da produção do autor por conta própria. Os poemas tratam da lenda de Aladim, do assassinato de um padre, da imigração, de velas acesas ao diabo e da seca, nessa ordem. O diálogo com outras obras e contextos, como Camões e Castro Alves, se faz evidente em alguns trechos. É uma boa mistura, mas que permite conhecer 5 faces de um poeta com um coração também vasto como o mundo.

Quem me dera ser onda (Manuel Rui)

A narrativa curtinha (uma novela) tem a potência e a poeticidade de seu título. Aliás, o trabalho com a linguagem é um capítulo à parte aqui, já que o autor não domestica seu texto; repleto de expressões típicas, exige um trabalho de constante consulta ao glossário (o que é também uma forma de imersão no contexto). Centrada sobre as desventuras de duas crianças com seu porco de estimação, a narrativa trata da perda da inocência e de como a passagem para o mundo adulto é dolorosa. É também uma alegoria maravilhosa do regime político em Angola após a revolução. Mais que grandes ideais socialistas, a prática política acaba se refestelando no confortável lugar de poder, usando os slogans da luta revolucionária para justificar abusos e intrigas. Nesse contexto, nem o porco escapa de ser taxado de burguês - e de, por isso, merecer a morte. 

Contos de amor rasgados (Marina Colasanti)

É a capa mais feia da minha estante, sem dúvida - e fica como um lembrete de que quem vê cara não vê coração. Depois de uma oficina ruim de minicontos, quis resgatar a leitura desse livro menos conhecido de Marina Colasanti, autora tão renomada da literatura infantojuvenil. Nem todos os textos da coletânea são minicontos, ainda que ocupem no máximo duas páginas. E, de qualquer forma, usar o tamanho para definir o gênero nunca dá em consenso (veja-se a fronteira sempre remarcada da diferença entre conto e novela). O fato é que tamanho não é documento. Se me lembrava desse pequeno conjunto como exemplo máximo de minicontos é porque, mais de uma década depois de minha primeira leitura, o impacto se mantém. Por vezes me remetendo a Black Mirror, por vezes aos labirintos borgianos, os contos de amor rasgam temas que bamboleiam entre a ficção científica e o surrealismo, o romantismo e o sádico, os mitos gregos e os contos de fadas. Para coroar, há a perspectiva feminista e combatente de uma ...

Rang de Basanti (filme de 2006)

Minha fase de assistir a todos os filmes (que conseguia encontrar por aqui no Brasil, claro) do astro bollywoodiano Aamir Khan foi há uns cinco anos. Aventurei-me também por outras produções indianas na época, mas nenhuma delas me marcou tanto quanto os longas em que o ator, muito reconhecido no país, participa. Talvez por seu prestígio, Aamir tem a chance de opinar na escolha de seus personagens: sempre carismáticos e cativantes, ainda que se trate de assassinos, vingadores, mafiosos e similares. Em "Pinte-me da cor do açafrão" (Rang de Basanti) não é diferente: seu adorável protagonista toma atitudes moralmente condenáveis (por alguns, ao menos). O filme é bastante exagerado nos cenários, nas atuações, nas danças típicas e até em efeitos especiais forçados. No entanto, a reviravolta da narrativa culmina em uma história tão boa e tão provocante que é difícil passar indiferente a esta obra. São vários os problemas na estrutura do longa; contudo, o principal, que é construir u...

O rei leão (filme de 2019)

Tenho vontade de rever "O rei leão" desde que soube se tratar de uma releitura de Hamlet. Isso de saber um novo olhar para aquilo que já conhecemos é impactante - é impossível retirar a camada de significados, limpar nossa opinião do que agora a antecede. Não deu para não reconhecer Shakespeare. E não deu para não problematizar racismo, machismo e heteronormatividade. Depois de uma aula da Heloisa Pires Lima (autora de "Histórias da preta") sobre estereótipos étnicos, o contraste entre Mufasa/Simba (leões de pelagem clara e másculos) e Scar (com pelagem escura e trejeitos afeminados) ficou gritante. É uma oposição muito forte entre o branco bom e o escuro (que é mau ou serviçal). Para não falar da ideia de governante predestinado e das fêmeas passivas. A parte gráfica é impressionante, mas não dá para esconder o simbolismo que carrega.