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*** Aguapés (Jhumpa Lahiri) ***

Consumimos muito do que vem da Índia - o yoga, a meditação, as roupas, os incensos, os temperos e até mesmo o festival das cores -, mas raramente admitimos essa irmandade. Ainda que separada por oceanos imensos, línguas múltiplas e mais de 330 milhões de deuses, esta nação oriental é marcada por muitos dos elementos que definem também nossa brasilidade. O (sub)desenvolvimento que nos aproxima no BRICS, a dança como expressão da cultura, os excessos (de gente, de crenças, de vivências), a corrupção, a desigualdade... são muitas as pontes que nos levam a essa cultura, tão diversa em sua unidade. Ao falar de pontes, coincidentemente me lembro do contexto de leitura de  Aguapés , que iniciei logo após finalizar  Dois irmãos , de Milton Hatoum. Centradas na mesma temática - as brigas e desencontros entre dois irmãos muito parecidos fisicamente  - as obras assemelham-se apesar de todas as fronteiras que existem ao meio.  Assim como Hatoum, Jhumpa também se utili...

Old Boy (filme de 2003)

Old Boy  pode ser interpretado, à primeira vista, como uma história de vingança e violência, pontuada por lutas marciais. No entanto, para conhecedores da tragédia grega, o filme se revela plenamente, em sua acepção mais ampla: trata-se de uma espécie de reconto do clássico  Édipo Rei , com o toque dramático que lhe cabe. Ainda que as conexões não sejam simplórias ou facilmente identificáveis, todos os elementos fundamentais da obra de Sófocles estão no longa-metragem: o incesto, a fuga do destino, o oráculo a propor enigmas, a máscara de dor que representa o gênero. Quando confrontada à tragédia, a produção sul-coreana ganha significados muito mais potentes e devastadores. Até os elementos hiperbólicos do filme se justificam quando comparados à obra de inspiração: afinal, o que é a tragédia senão um gênero de horrores físicos e emocionais? Mutilações, torturas e aproximação de um estado de loucura são alguns dos recursos utilizados pelos gregos para levar o espectad...

Fugitiva (Alice Munro)

Edgar Allan Poe defendia que o conto é um gênero para ser lido "de uma sentada só" - com um núcleo narrativo breve e intenso, não deveria ser fragmentado em leituras menores, sob o risco de perder seu impacto. Descumpri totalmente os preceitos do autor do Corvo durante meu primeiro contato com a obra de Alice Munro - e não me senti em nada desfalcada. Livro de reserva na bolsa, os contos de A fugitiva  me acompanharam por quase meio ano, em um processo de leitura intervalado e cheio de falhas, lacunas. No entanto, mesmo ao retomar a obra com semanas de afastamento, em meio ao enredo de um conto, conseguia rapidamente me lembrar da trama e acompanhar o desfecho de cada história. Talvez o fato de incluir os mesmos personagens em vários dos contos ajude a tornar a coletânea deste volume bastante notável, com personagens marcantes que demoram a se desvanecer da mente. Contudo, há algo além - algum elemento não identificado na escrita da canadense torna a incorporaç...

Dois irmãos (Milton Hatoum) + Dois irmãos (Fábio Moon e Gabriel Bá)

Dois irmãos  é um livro indubitavelmente bem escrito. Com uma tensão constante, que se prolonga das páginas iniciais às finais da narrativa, Hatoum consegue deixar seu leitor em permanente estado de angústia diante dos conflitos de seus personagens tão humanos, tão falhos. Para compensar um pouco desta irremediabilidade da vida, o autor nos brinda com a doçura de seus regionalismos, que nos fazem mergulhar pelos afluentes do Amazonas. Os cheiros, os sons, os sabores do Norte do Brasil se mesclam perfeitamente à narrativa, em uma mistura equilibrada e surpreendente. Talvez primeiro escritor nortista a ganhar renome na academia e fora dela (com obras adaptadas pela TV Globo, por exemplo), Hatoum nos leva a conhecer um pouco mais desta parte do país - nosso único e diverso país. Sem ater-se à questão amazônica, o autor também explora referências libanesas, relatando um certo oriente que se incorporou ao topo do Brasil. Dois temas são bastante prementes na narrativa de Mil...

Pygmalion (George Bernard Shaw)

Pigmaleão é uma narrativa mítica, recontada por Ovídio, que centra-se na história de um escultor apaixonado pela própria obra. Assim como o seu contraponto romano, o professor Higgins, um dos protagonistas da peça de George Bernard Shaw, se encanta pela conversão que realiza: transformar uma humilde vendedora de flores, com uma linguagem cheia de jargões, em uma dama da alta sociedade.  Escrita em 1913, a obra tem claramente um viés de preconceito linguístico e social forte. Contudo, além de precisarmos ter em mente o contexto em que foi escrita, uma leitura atenta das entrelinhas revela o senso crítico do autor, diante do qual todos os valores da sociedade convencional se desmoronam. Realmente me encantei com este curto livro. Ademais do humor leve (e por vezes até um pouco pastelão, sempre muito divertido), ele enseja reflexões interessantes. Como professora, meu questionamento imediato foi: até que ponto um educador tenta transformar seu aluno no que deseja, ao inv...

O sexto sentido (filme de 1999)

Difícil analisar um filme a que só assistimos depois de virar meme; toda a gravidade e méritos do enredo de reduzem a um post de facebook, uma imagem viralizada, vazia e sem conteúdo. Talvez a obra até tenha seu valor; para mim, que não entro na onda de filmes de fantasmas, pouco ou nada surpreendeu. O ponto mais interessante da trama é o seu final. No entanto, ainda que a reviravolta seja grande, trata-se, no máximo, de uma história sendo contada de forma bem amarradinha. Não há muito a extrair do longa, além de um ou outro sustinho.

História do amor no Brasil (Mary Del Priore)

A história do cotidiano costuma me encantar. Acho fundamental (inclusive no ensino escolar) que este viés mais social, focado na construção do dia a dia, sempre esteja presente no retrato de uma época, seja ela qual for. Afinal, são as pessoas que fazem a história - camponeses, artesãos, escravizados, feitores, agricultores... muito mais do que uma dezena de reis isolados na Europa. Mary Del Priore é uma autora bastante conceituada nesta área, com várias publicações sobre a intimidade e os modos de viver do povo brasileiro. Entretanto, t alvez esta história do amor seja, dentre os livros que conheço de sua autoria, o que menos me surpreendeu.  Em nenhum momento o livro deixa de ser interessante ou embasado historicamente; contudo, muito do que se diz e se pesquisa na obra já são informações conhecidas. Foram poucos os trechos que despertaram de fato minha curiosidade ou revelaram alguma peripécia amorosa da qual nunca havia escutado falar. No geral, é um bom livro de ...