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A Ghost Story (filme de 2017)

Nada mais natural que um filme, cuja temática é a morte, exija paciência do espectador. Afinal, aqui estamos diante de temas grandiosos e inexplicáveis como a eternidade, a dor, o sofrimento, a passagem da vida. E ainda que este percurso pareça tão lógico e coeso, ele vai incomodar a quem está do outro lado da tela, na ponta oposta chamada vida. O clichê utilizado para representar o espírito humano - um lençol com dois buracos nos olhos - é uma dica para quem se propõe a encarar a produção. Não é na representação física que a morte se apresenta; pelo contrário, os efeitos da perda de um ser amado revelam-se naquilo que não se pode ver ou tocar. Assim, o uso do tempo é a grande estrela deste longa. Enquanto não captamos a ideia que rege a produção, parecemos estar diante apenas de cenas mal cronometradas - tolo engano. Um dos norteadores desta obra é o mostrar a importância dos pequenos momentos e o rápido fluir dos dias, sem cair no discurso de autoajuda. Do conjunto, apenas uma ...

Vidas Secas (Graciliano Ramos) + filme de 1963

Com uma forte veia memorialista, Graciliano é um daqueles autores que se conhece e se reconhece aos poucos - cada nova leitura proporciona uma inédita abordagem de sua obra. Ainda que esta afirmação seja extremamente genérica, não deixa de ser válida (ao menos nas minhas próprias experiências de retomada dos romances do alagoano). "Vidas secas", narrado em terceira pessoa, é uma exceção no conjunto da obra do autor, voltada para elementos da própria biografia. No entanto, após conhecer "Memórias do Cárcere", identifiquei algumas das experiências de Ramos metamorfoseadas nas vivências da família de Fabiano. Como não associar, por exemplo, a fragilidade do protagonista frente ao soldado amarelo com a prisão injustificada do autor durante a ditadura de Getúlio? As camadas de significados do romance são outra boa surpresa que só a releitura pode proporcionar. Mestre dos cortes e da concisão, ao escolher cada vocábulo para compor as vidas secas, Graciliano tece t...

Mãe! (filme de 2017)

Ocupando aquela linha tênue entre filmes que são amados por uns, odiados por outros, "Mãe!" é uma aposta alta de Darren Aronofsky. Toda a trama constrói-se em torno de uma alegoria nem sempre clara para o espectador, gerando dois efeitos profundos e opostos: ou a intriga e a motivação de pesquisar mais sobre a linha de raciocínio do diretor, ou a repulsa pela aparente inverossimilhança do narrado. Um dos recursos que Aronofsky usa para criar essa ambiguidade na recepção de sua obra é o passeio por gêneros diversos: entre o terror e o humor, o romântico e o trash , seu longa foge das categorizações fáceis. É uma obra multifacetada, dominando linguagens diferentes e exigindo reações diversas daqueles que a assistem. Em minha busca por análises de "Mãe!", encontrei uma definição justa para este trabalho do diretor: Darren é megalomaníaco e moralista. Se pouco tenho contra o primeiro adjetivo, o segundo, por sua vez, me deixa bastante incomodada.  A temática do se...

O bem-amado (Dias Gomes) + filme de 2010

Canonizado no imaginário brasileiro, "O bem-amado" nem sempre foi uma produção global televisiva de muito sucesso - publicado inicialmente em 1962, despertou a censura e o ódio durante o período de ditadura militar. Na sua talvez mais conhecida peça teatral, Dias Gomes faz uma sarcástica interpretação da política brasileira, movida a interesses escusos e demagogias baratas - um texto bastante atual, portanto. Por trabalhar com tipos e piadas rápidas, o tom geral da obra acaba sendo mais o humor - ao contrário de "O pagador de promessas" por exemplo, que beira a tragédia. Ainda que prefira a verve mais dramática do que a cômica, trata-se de uma produção bem realizada. O mesmo não se aplica ao filme homônimo de 2010 dirigido por Guel Arraes. Na tentativa explícita de recriar o sucesso de "O Auto da Compadecida", o diretor se engana profundamente. Sem nem ser fiel ao texto original e nem conseguir reproduzir a comicidade anterior, o longa-metragem é um ...

A vida secreta dos grandes autores (Robert Schnakenberg)

Todo ilustrado pelo cartunista Allan Sieber e com uma capa que brinca com a ideia dos tabloides de fofocas, em princípio é difícil levar esta obra a sério. No entanto, usei como termômetro da confiabilidade da leitura as informações que já possuía. Sobre Tolstói, por exemplo (sobre quem já li uma biografia de quase 600 páginas), nenhum dado oferecido por essa biografia divertida me pareceu demasiado exagerado ou irreal. Tomando este russo como parâmetro, a obra, ainda que tenha sim o propósito apelativo, não deixa de ser informativa. Para quem gosta de literatura é quase um fan service . Para quem não gosta, é um bom meio de descer os escritores do pedestal e torná-los mais próximos, reais e falhos (se não na escrita, ao menos como humanos).

Jorge de Lima: vida e obra (Povina Cavalcanti)

Já é frase repisada (e com autoria perdida) que a estrada para o inferno está pavimentada com advérbios. Povina Cavalcanti não só segue fielmente este preceito, como reforça todas as veredas de seu caminho com adjetivos bizarros, típicos de um lambe-botas literário e católico carolinha. O livro biográfico vale apenas pelas citações: trechos escritos por Jorge de Lima ou sobre ele. Todo o resto, articulado pelo cunhado do famoso poeta, é absolutamente desprezível, absurdamente mal escrito, um exemplo do que não se deve fazer em crítica literária de qualquer ordem. Redações de alunos semialfabetizados são mais bem construídas.

Dangal (filme de 2016)

Os fãs de filmes indianos já se acostumaram à abertura clássica dessas produções: o print  de uma ficha com os dados técnicos da produção (o que talvez seja um retrato da burocracia que, tal como aqui, permeia este país de dimensões continentais). No entanto, Dangal oferece uma grande surpresa, logo no início: o castelinho da Disney anuncia que essa produção é de Bolly e de Hollywood - um misto até então raro. O que veio do Ocidente para o Oriente de positivo? A película recente de Aamir Khan revela uma nova temática, centrada na força e no poder feminino. Em um país machista como a Índia (uma das campeãs de estupro do mundo), esse tipo de mentalidade - ainda que importada - é sempre bem-vinda. As produções de Bollywood atingem milhões - que seja, então, para divulgar respeito. Por outro lado, a influência ocidental nesta peça indiana acabou confluindo para pasteurizar um pouco mais o seu formato, seu enredo, seu estilo. Trata-se de um filme mais curto que o usual, com menor me...