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Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

Os estudos da história cotidiana são recentes (datam dos anos 1960), mas seu campo de atuação vem se ampliando cada vez mais. Ainda assim, quando algum fenômeno abala o mundo, não são os relatos da vida privada que vemos ocupar o centro das informações. Até hoje, por mais avanços e questionamentos existam na historiografia recente, os donos do poder são os donos da história. O livro de Svetlana Aleksiévitch me tocou profundamente. Ao estudar o acidente de Tchernóbil sob a voz da história oficial, ele me parecia apenas mais uma página de um livro didático qualquer - sem uma relevância comparável à de Hiroshima, por exemplo. Ao ser contraposta ao discurso de pessoas que viveram a catástrofe, tive um vislumbre de uma realidade trágica, assustadora e com consequências que reverberarão durante séculos. Tchernóbil não foi um acidente devidamente controlado a tempo. A usina foi um erro desde o começo - feita de modo acelerado durante a Guerra Fria, seu colapso era uma questão de tempo... ...

The Music of Strangers [filme de 2015]

Um documentário sobre música pode parecer, à primeira vista, pouco interessante para quem é leigo no tema - ainda mais quando retrata um grupo musical muito específico e peculiar, como é o caso do Silk Road Ensemble. Contudo, este filme vai muito além dessa aparência inicial e é largamente indicado (o único pré-requisito para assisti-lo com prazer é ser humano e, portanto, amar a arte). Muito vinculada ao seu tempo,  essa obra é um ótimo retrato da globalização. O Silk Road compõe-se de músicos de diversos países do mundo, cada um com seu instrumento, sua técnica, sua inseparável cultura. Assim, mais do que misturas inusitadas (como uma gaita-de-fole com um violoncelo), o que se vê em cena é um grande e harmonioso diálogo entre os diferentes. Há uma construção linear, que revela como se deu a formação do conjunto, acompanhada de recortes temporais e temáticos para construir a identidade de alguns de seus principais músicos. Seus integrantes são retratados com bastante profun...

Queria ter ficado mais (Várias autoras)

A edição da Lote 42 é tão caprichada que dá medo, à primeira vista, de ser forma sem conteúdo - afinal, a maioria das autoras (se não todas) é desconhecida do público. No entanto, muito caprichada em cada detalhe, a obra é uma delícia para os apaixonados por viagens. São 12 relatos, todos escritos por mulheres, de viagens marcantes em suas vidas. Cada memória vem embrulhada em um envelope ilustrado como se fosse um cartão-postal, como uma carta que veio de longe para encontrar o leitor. Cada viajante é um jeito de conhecer o mundo - assim, nem todas as formas de roteiro agradam igualmente. Para mim, os relatos que mais deixaram a desejar são aqueles de viagens movidas a cachaça; por outro lado, o número de histórias tocantes é muito maior. Há quem levou os pais para a primeira viagem ao exterior, quem acompanhou um desconhecido pelas ruas da China para ver uma pesca, quem fez um amigo em um museu e que retorna sempre a ele para botar o papo em dia. São várias histórias, aventuras, ...

Múltipla Escolha (Alejandro Zambra)

Zambra é um autor chileno contemporâneo de que gosto muito - em partes. No geral, toda sua obra me soa um tanto irregular: há começos que são inesquecíveis (como o incrível início de "Bonsai"), passagens marcantes (como a discussão com um pai pinochetista em "Formas de voltar para casa") e finais enigmáticos (vide "A vida privada das árvores"). No entanto, entre tantos excertos profundos, nem sempre o autor parece manter o mesmo fôlego ou qualidade - ainda que seja o criador de poucos e curtos livros. Assim, "Múltipla escolha" é uma obra que, pela forma, já trouxe todos os elementos para virar o meu Zambra favorito. Como dito no título, este é um projeto literário desenvolvido na forma de testes de vestibular - diante de várias alternativas, posso escolher o meu rumo da história, o meu narrador preferido dentre as ideias múltiplas do escritor. Novamente, não são todos os textos que são igualmente potentes - mas, em um gênero fragmentário como...

Novos Poemas + Poemas Escolhidos (Jorge de Lima)

Jorge de Lima é um autor por desvendar - não somente por mim, mas por toda uma fortuna de crítica literária que, ainda que reconheça constantemente sua importância, raramente dá explicações mais profundas (ou acessíveis) sobre o seu fazer poético. Considerado pela academia como um poeta hermético, Lima é um versador de muitas faces. Em seus poemas de temática mais social, consegue atingir o grande público com uma clareza de linguagem notável. Assim, entre multifacetado e enigmático, é um escritor múltiplo. Os "Novos Poemas" e os "Poemas Escolhidos" revelam a faceta modernista do poeta. São versos muito preocupados com o elemento social, com a luta de classes, com a valorização do povo negro. No entanto, publicados por um médico de classe média branco, são carregados de uma visão mais filantrópica do que empática. Há um certo tom "caridoso" em alguns poemas, que pregam o respeito ao povo negro em função da sua importância para a história do paí...

Ocho apellidos vascos (filme de 2014) + Ocho apellidos catalanes (filme de 2015)

Recentemente, com a controversa independência da Catalunha, a complexidade do território de fala castelhana voltou a ser pauta na mídia - de maneira quase sempre superficial e grosseira. Nesse contexto de total desinformação, mesmo a produção mais despretensiosa - como é o caso das duas comédias comentadas aqui - pode servir como uma fonte a mais de conhecimento sobre um tema historicamente intrincado. O primeiro longa da sequência, "Ocho apellidos vascos", recorre ao mote clássico romeu-e-julieta: um casal surge entre inimigos, com ela vasca e ele, andaluz. Um das graças de ambos os filmes é ver os personagens tentando fingir que são de origens distintas, como o espanhol que incorpora algumas palavras da língua euskera à sua fala. Nessa jogada cômica, vemos, por um lado, os estereótipos de cada nação dentro da Espanha; de outro, percebemos o quão complexa é a identidade de cada um desses povos, que soa patética quando forjada por alguém de outra cultura. Por serem comédias...

O quinze (Rachel de Queiroz)

Publicado quando a autora tinha apenas 20 anos, "O Quinze" foi um dos primeiros retratos das vidas secas brasileiras, um marco no início da segunda fase do nosso Modernismo. As críticas da época (que até hoje se reproduzem nas constantes reedições da obra) enfatizavam a falta de sensibilidade da escritora - afinal, como uma mulher poderia ser tão durona? Assim como o romance de Graciliano, já tão exaustivamente estudado, esta narrativa de estreia de Rachel é tão seca quanto o ambiente que retrata: pouco mais de 100 páginas e uma linguagem bastante direta, sem perder-se em adjetivações excessivas. Por meio do enxuto, a escritora dá voz a personagens mirrados, esmagados pelo tempo inclemente do Nordeste. A grande seca de 1915 é protagonista na trama e traz consigo morte, desolação, canibalismo e a impossibilidade de todo e qualquer amor. A jovem autora dos anos 30 não fala de amor romântico, mas repensa o afeto pelas mulheres: algumas leves indicações de um incipiente femin...