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O corajoso coração de Irena Sendler (filme de 2009)

Histórias de resistência são raras - em um mundo de globalização, compartilhamentos, formação de opinião em massa, qual seria a vantagem de permanecer fora das correntes ideologicamente dominantes? Voltando quase um século no tempo, em um contexto de guerra, com o extermínio de populações inteiras friamente planejado, parece ainda mais inverossímil lutar contra uma força tão suprema. A história de Irena Sendler é marcada com tamanha coragem que, após o final do filme, tive de procurar informações sobre a sua vida para conseguir, de fato, acreditar nos aspectos retratados. Em alguns momentos, a película não é crível - não por falta de coerência interna, mas porque a ousadia da protagonista é impensável. Durante a formação do gueto de Varsóvia, Irena, uma assistente social, decide contrabandear as crianças para fora da região delimitada por Hitler. Assim, destinava os pequenos a famílias polonesas dispostas a acolhê-los, falsificando identidades e evitando a morte de nada m...

Claro Enigma (Carlos Drummond de Andrade)

Escrito pouco após a Segunda Guerra Mundial, Claro Enigma  é um livro soturno e melancólico. Em cada poema de Drummond há um profundo pesar em relação a vários dos aspectos da vida: o amor, as memórias de Minas, a morte, as reflexões sobre a sociedade...  A primeira parte, "Entre lobo e cão", retrata um pouco da nossa condição humana (tão próxima ao instinto selvagem). O poema "Legado", que ironiza a clássica pedra no meio do caminho, e "Memória", estão entre meus escritos favoritos.  A segunda parte, "Notícias amorosas", pode enganar em uma leitura mais superficial, mas é, na verdade, uma coleção de poemas sobre a nossa falta de amor. A terceira parte, "O menino e os homens", registra, além de conflitos de geração, uma breve homenagem aos Mários: Bandeira e Quintana. A quarta parte, "Selo de Minas", retoma a terra natal de Drummond, assim como suas memórias de infância. A quinta parte, "Os lábios cerrados", é ...

Juventude hitlerista (Susan Campbell Bartoletti)

O nazismo é um tema bastante explorado pela mídia, pelo cinema, presente de tal forma em nossa formação histórica que podemos chegar inclusive a pensar que já conhecemos o suficiente sobre o assunto. No entanto, basta olhar a situação política atual (em quase qualquer lugar do mundo), o recrudescimento da extrema direita, o orgulho em se dizer hétero, de classe média, cristão (e o orgulho de desprezar quem não pertence a essas categorias) para vermos que não sabemos nada sobre o que foram os movimentos fascistas. Um breve livro, como o de Susan Bartoletti, já nos mostra o quão mais grave foi essa questão - com aspectos de crueldade e manipulação que precisam ser relembrados, para não se repetirem. O estudo da autora mostra, de forma geral,  como era a juventude na época de Hitler, abrangendo tanto os que eram a favor quanto os que eram contra ele. Conhecer como era o processo educativo-manipulatório do nazismo é assustador - afinal, foi ele, em grande parte, que levou os alemães ...

É isto um homem? (Primo Levi)

Adiei por muito tempo a leitura de É isto um homem? , por mais que soubesse que se tratava de um livro icônico para refletir sobre o nazismo, e, além do mais, de uma obra bastante curta (cerca de 150 páginas). No entanto, apesar de sua breve extensão, é um livro muito poderoso. Durante o processo de leitura, se, por vezes, caía no sono (pelo hábito de ler no ônibus e não pela falta de interesse na narrativa), logo era assaltada por pesadelos. Por mais que Primo Levi não seja um escritor prolífico, suas descrições, pontuais, são suficientes para criar o panorama do que foi a terrível Auschwitz. O autor conta como o seu trancafiamento talvez tenha sido até um pouco menos intenso, considerando que o fim da guerra já se aproximava e que os alemães precisavam da mão de obra judaica escravizada. Mesmo assim, não há alívios de nenhuma espécie na trama. Cada momento vivido pelos prisioneiros é marcado pela dor, pelo confinamento, pela subjugação a ordens aleatórias e autoritárias. A p...

Alguma poesia (Carlos Drummond de Andrade)

Uma pedra no meio do caminho, Cidadezinha qualquer, Poema de sete faces... O primeiro livro de Drummond contém tantos de seus poemas antológicos que a impressão que se tem, durante a leitura, é a de estar diante de algum capítulo de livro didático destinado à sua obra. Talvez por sua irreverência modernista, talvez pelo tamanho (geralmente curtos), esses poemas já foram tão explorados como recurso de ensino que é difícil desfrutar da obra por si. Logicamente, se esses poemas são tão antológicos é justamente por sua qualidade literária e, também, por oferecerem tantos traços que serão perenes na obra drummondiana. No entanto, por reservar tão poucas surpresas (já que boa parte do livro é conhecida e repisada nas escolas), não é minha coleção de poemas favorita do mineiro. "Poema de sete faces", primeiro de todos os poemas publicados por Drummond, é surpreendente por sua capacidade premonitória: em cada uma das sete estrofes, oferece temas que serão sempre presentes na...

Crime e castigo (filme de 1970)

Dostoiévski é um autor de que gosto muito, mas não é o meu russo preferido. No entanto, se há um aspecto em sua obra que é mais forte do que em todos os outros autores do mesmo contexto é o seu caráter perturbador. A descrição da consciência dos personagens e a polifonia, em conjunto, atuam de forma impactante sobre o leitor, que não fica imune a tantos discursos intensos e provocadores. O livro Crime e castigo  possui essa capacidade em uma larga escala, e o fato de a leitura nos fazer imaginar cada cena, cada passo de Raskólnikov é algo que nos atiça enquanto participantes de uma trama com traços de suspense. O filme russo dos anos 70, contudo, ainda que não seja melhor que o livro (mas talvez seu complemento perfeito), consegue ser mais perturbador que o original. Tive de assisti-lo em partes (com quase 1 ano de distanciamento), tal o seu feito. Os diálogos são duros, o ambiente é sufocante, as interpretações são preciosas e sabem reconstruir o ambiente de pesadelo dos ...

As aventuras de Hans Staden (Monteiro Lobato)

Monteiro Lobato era um dos meus autores preferidos da infância, e, aproveitando a coleção quase completa de suas obras comprada a preço de banana nos sebos da vida, decidi dedicar-me à releitura desses livros infantis. No entanto, ainda que previsse um novo olhar sobre as histórias do Sítio do Pica-pau-amarelo, não imaginava que seria um processo tão doloroso. Tia Nastácia é humilhada a cada momento (principalmente por Emília), o que torna muito difícil continuar sentindo simpatia pelos personagens infantis de Lobato. Confesso que, nas obras em que Nastácia não aparece, sinto um alívio na leitura - mas é temporário. As aventuras de Hans Staden  talvez tenha sido o livro que mais me impressionou na infância - e não é à toa, já que as descrições de canibalismo são para tirar o sono de qualquer criança. Ao relê-la, senti um certo conforto quando percebi que a ausência de tia Nastácia significaria talvez um controle na língua ferina e maldosa de Lobato - mas foi ledo engano. S...