sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ex_machina (filme de 2014)

Inicialmente o plot me atraiu: convidado a fazer parte de um experimento de ponta com inteligência artificial, um programador se dirige a um laboratório altamente vigiado para realizar os primeiros testes com os robôs-humanoides. Impressionado com a tecnologia empregada, ele começa a questionar como essas criaturas adquirem a linguagem - uma discussão que envolve modernas teorias linguísticas, remetendo a nomes de peso como Chomsky.

O filme prossegue, com as devidas reviravoltas no enredo, um clima de suspense e efeitos especiais que condizem com o gênero ficção científica. É uma trama relativamente interessante, que prende, por alguns momentos, a atenção do espectador.

No entanto, apesar de não ter me frustrado enquanto o assistia, não é o tipo de filme que marca, que permanece. Pouco tempo após vê-lo, já me esqueci de boa parte dos detalhes do enredo e não tenho carinho especial por nenhuma cena. Assim, talvez seja correto julgá-lo apenas como entretenimento, sem exigir nada mais do que duas horinhas de imersão na tela.



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Caminhos Cruzados (Erico Verissimo)

Erico Verissimo é um cânone da literatura brasileira: muitas publicações, presença nos livros didáticos de língua portuguesa, adaptação para séries e filmes. No entanto, apesar de alguns livros na minha estante (todos ganhados de presente), era um autor do qual nunca tinha lido nada - se não me engano, nem uma única linha. Não consigo definir o que me deixou afastada tanto tempo da escrita do autor sulista, mas é preciso correr atrás do prejuízo. O texto fluente e mordaz de Verissimo me fisgou, e não vejo a hora de ler e conhecer mais do autor.





Caminhos cruzados é uma narrativa com estrutura bastante moderna: personagens diversos são os protagonistas da obra, sem que suas histórias se cruzem necessariamente entre si. Ao optar por apresentar uma miríade de vivências ao leitor, Verissimo oferece um panorama bastante rico da vida em Porto Alegre no início do século XX.

A ampla gama de personagens gera identificação ou reconhecimento de caracteres alheios em muitos deles: quem nunca teve uma vizinha pessimista, que só sabe falar de doenças e velório? Ou quem nunca conheceu (ou foi) um apaixonado por livros, capaz de empenhar todo o seu dinheiro em busca das fantasias livrescas? Os protagonistas da trama, sem serem estereotipados, refletem bem muitos traços de personalidade comuns na nossa realidade.

Outro ponto interessante da obra é ver como os personagens se definem pelas leituras que fazem (ou deixam de realizar): a madame carola que lê hagiografias, o desesperadamente pobre que foge da realidade por meio de livros de aventuras, o empresário que finge ler os clássicos diante da sociedade (mas que gosta mesmo é de um bom best seller)... Dessa forma, dá para se afirmar que, além de tudo, Verissimo fez um livro sobre leituras e literatura - um prato cheio para qualquer um que viva entre as linhas dos textos.






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O filme da minha vida (filme de 2017)

Apenas o fato de ir ao guichê do cinema e pedir um ingresso para "o filme da minha vida" já é uma prerrogativa da amorosa metalinguagem deste excelente (se não o melhor) filme brasileiro, dirigido por um maduro e poético Selton Mello.

O trailer, de pouco mais de 2 minutos, já é o suficiente para dar uma amostra da incrível fotografia desta obra. Inspirado em um livro do chileno Antonio Skármeta (também autor da história por trás de "O carteiro e o poeta"), o longa capta captura belos elementos da linguagem literária e os transpõe para a tela, transformando tudo em uma deliciosa narrativa, plena em poesia e lirismo.

Longe dos esterótipos do cinema brasileiro (pouca roupa, muito calor, palavrões contabilizados por minuto, espetacularização da violência), o filme consegue atingir aquela rara camada de universalidade particular - revela uma realidade que é nossa, mas que pode ser lida por muitas culturas.

Talvez esta distância dos clichês nacionais esteja relacionada à própria cultura da obra, que retrata uma região de fronteira entre o sul do Brasil e os países vizinhos, entre o português e o espanhol, entre a vida no campo e na cidade. Além disso, a presença forte de Vincent Cassel como um dos personagens principais amplia as possibilidades do enredo - são diferentes línguas, sotaques, vivências em uma só trama, personagens de culturas múltiplas tentando construir uma só história.

Só a fotografia e a trilha musical seriam o suficiente para fazer deste um grande filme. A direção de Selton é tão magnífica que a impressão que se tem é a de que os intérpretes mal precisam se preocupar com a atuação - afinal, a precisão poética de cada take já parece dar conta, por si, de criar todas as polissemias necessárias. No entanto, a obra ainda tem o grande trunfo de contar com uma reviravolta significativa no enredo, enchendo o espectador de surpresa, expectativa e prazer.

É, se não o melhor filme da vida, no mínimo uma joia rara dentre o cinema brasileiro. Os tempos são difíceis, mas a cultura resiste - e vem gerando bons frutos.





domingo, 13 de agosto de 2017

Anne of Green Gables (L. M. Montgomery)

Apesar de só ter virado hype no Brasil recentemente, em função da série "Anne with an E" na Netflix, o romance quase homônimo foi um grande sucesso da literatura infantojuvenil na época de seu lançamento, no início do século XX. Quase que uma predecessora do boom dos livros para crianças, a escritora L. M. Montgomery, animada pelas enormes vendas, publicou várias sequências para a sua história, transformando-a em um verdadeiro ícone da ficcção.




Um exemplo do quanto a trama foi (e é marcante) é o fato de que a ilha em que supostamente viveu a personagem Anne tornou-se uma rota de turismo, com direito a selfies tiradas em frente às casas típicas do lugar e compra de muitos souvenires. Adaptada para desenhos japoneses, criou também uma legião de fãs do outro lado do mundo.

Mas em que esse enredo, com um clima marcadamente bucólico, ainda atinge os leitores (e espectadores) de nosso tempo?

Talvez despercebidos na época do lançamento, há muitos traços modernos nesta pequena obra de Montgomery: uma leve, tímida discussão do feminismo, a prerrogativa de que uma menina pode fazer o que quiser e ser quem quiser ser, o desafio às convenções sociais, o questionamento do bullying, da religiosidade forçada...

Os aspectos contemporâneos de Anne só são vistos em uma leitura mais atenta; afinal, escrito por uma mulher no início do século passado, só foi um sucesso de público por louvar os valores mais tradicionais: a família, a fé, a honestidade, os bons modos. Ainda assim, há um subtexto que salva o livro de um pesado conservadorismo.

É um livro infantil que não inferioriza o sue leitor; ao longo da história, vemos a personagem passar por diferentes momentos (bons e maus), sem que nada seja aliviado ou escondido do seu público. É uma trama para crianças, mas verossímil em seu retrato da realidade, que não é maquiada. Anne sofre, enfrenta mortes, arrependimentos, tristezas, seu processo de crescimento - e, com ela, amadurece também o leitor.

Outro ponto de destaque são as referências literárias (Anne é uma grande leitora) e a linguagem característica da personagem.

Apesar de ser canadense (e não inglês), é uma obra que convida a um chazinho das 5 com bolachas - extremamente afetiva, gostosa de ler, reconfortante como o som de "e" ao final de "Anne".


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Arvorada (Orlandeli)

Chico Bento já havia estreado na coleção de novelas gráficas da Turma da Mônica, a Graphic MSP, mas sem um resultado surpreendente. "Pavor espaciar", primeiro título do personagem dentro deste selo, é uma história interessante, mas que pouco marca o leitor.

Em "Arvorada", Orlandeli consegue trazer o elemento mais caro às melhores obras da coleção: o tom poético. Aliado a um desenho de traço simples, mas que casa com o enredo, o resultado alcançado está dentre os melhores dos seus pares.

Orlandeli aposta na figura quase mítica da avó de Chico, valorizando a experiência e sabedoria dos mais velhos. Além disso, tem sensibilidade o bastante para resgatar alguns fatos pouco conhecidos da vida do personagem, como a morte de sua irmãzinha Mariana.

É um quadrinho para fãs e leigos; uma florada de ipê bem amarelinho surge a cada página de "Arvorada".


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Os capacetes brancos (filme de 2016)

Com apenas 40 minutos, este documentário talvez seja o mais próximo que você conseguirá chegar de alguma verdade sobre a Síria. Dividida entre confusos partidarismos, sofrendo ataques de países que se aliam ou se afastam de determinadas causas, a única realidade inquestionável sobre esta nação hoje é a de que ela está exterminando sua população civil.

O documentário "Os capacetes brancos" retrata um grupo de homens, destituídos de suas profissões originais neste país em destroços, que decidiram fazer parte de uma equipe de resgate. Retificando, "decidir" aqui é um verbo muito forte - quais são as outras opções possíveis, em um território em guerra, a não ser trabalhar diretamente no conflito, torná-lo rentável ou minimamente uma fonte de sobrevivência?

Boa parte do filme acompanha os homens durante um treinamento na Turquia, durante o qual podemos conhecer um pouco mais desses personagens, suas inumeráveis perdas, suas ralas esperanças. Nas poucas tomadas feitas na Síria, as imagens são sempre de baixa qualidade - feitas entre uma explosão e outra, uma correria aqui e outra acolá, são pequenos retratos da instabilidade perene neste país.

Pouco mais de meia hora de filme é o suficiente para encararmos nossa impotência (quiçá indiferença) com o maior massacre deste século. 




Speech and debate (filme de 2017)

Adoro filmes sobre aulas de Produção de Textos, Debate, Oratória, enfim - gosto de confrontar o conteúdo que eu preparo com a visão de outros professores e alunos, ainda que fictícios. Logo, não é de estranhar que um longa intitulado Speech and Debate tenha atraído minha atenção.

Para os desavisados, como eu, fica logo o aviso: não há nada de discurso e debate nesta produçãozinha adolescente extremamente sem graça. É um filminho horroroso, com atuações pífias, um pretenso musical com cantores desafinados, uma produção sobre escola que trata os alunos como incapazes e os professores como criaturas frustradas. Uma porcaria enlatada, que deve ser descartada facilmente por qualquer um que tenha bom gosto.