domingo, 8 de julho de 2018

A tradutora (Cristóvão Tezza)

Meu primeiro romance de Tezza, talvez "A tradutora" não seja a melhor obra para principiar a leitura do autor catarinense. Os personagens do romance são criações anteriores do escritor, que já tinham habitado as páginas de outros livros antes de migrarem para a narrativa em questão.

Desconhecidos para mim até então, não consegui sentir empatia pelos protagonistas. A narradora, Beatriz, é bastante superficial. Por ser narrado pela técnica do fluxo de consciência, temos acesso direto à mente da tradutora, cheia de hesitações, desconfianças e inquietudes.

O aspecto mais interessante do livro é observar o processo de tradução da obra de um filósofo catalão criado pelo próprio Tezza; assim, acompanhamos não apenas como se constrói a transposição de sentidos, mas também como o estilo do autor traduzido se reflete na articulação dos pensamentos de Beatriz.

Trata-se de uma obra bem articulada, com aspectos interessantes, mas que pouco envolve. Talvez conhecendo a genealogia dos personagens em outras obras mude um pouco minha percepção sobre o livro, que passou longe de se tornar um favorito.



Canção de ninar (Leïla Slimani)

O arquétipo da babá que mata as crianças não é uma novidade na nossa cultura - veja-se "A mão que balança o berço", "Minha babá é uma vampira", "A babá" (série de terror), dentre outros exemplos que qualquer busca rápida pelo Google nos fornece. Assim, com um tema tão batido, o que diferencia o livro da autora franco-marroquina Leïla Slimani?

Primeiramente, obra dificilmente poderia ser considerada um suspense, já que deixa bem claro seu desenlace logo ao primeiro parágrafo:

"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul. Fotografaram a cena do crime." 

O foco da narração não é o de desvendar um mistério; pelo contrário, todo seu esforço concentra-se em criar o panorama de uma tragédia que já se sabe inevitável. Sem eximir nenhum dos personagens de culpa, a autora trabalha com a responsabilização de toda uma sociedade: desde a mãe que não quer abdicar da carreira profissional à qual tanto se dedicou até as condições precárias de trabalhos dos imigrantes, sempre permeadas pelo racismo e pela violência. Trazendo discussões sociais importantes à tona, a obra vai muito além de um simplório thriller - afinal, a violência trabalhada por Slimani é absolutamente real (e, como no livro, também quase sempre inevitável).



Tempo de migrar para o norte (Tayeb Salih)

Culturas são intransponíveis - carregadas de histórias, linguagens e modos de viver únicos, revelam o quanto o diálogo com o outro é necessário, ainda que nunca seja completo. Por mais forte que seja a nossa empatia (in + pathos), o colocar-se no lugar do alheio é sempre uma tentativa frustrada, uma compreensão parcial. As vivências não se traduzem; em vez de reduzirmos culturas na busca por ideais sinônimos perfeitos, talvez nossa atitude diante do diverso deva ser sempre a de uma humilde tentativa de entendimento - que já sabemos, por antemão, ser impossível. 

A narrativa de "Tempo de migrar para o norte" choca o leitor ocidental não apenas por sua forte alegoria de violência contra o colonizador branco, mas também por revelar o quão pouco compreendemos das vivências africanas (especialmente no que se refere ao Sudão). 
As práticas culturais descritas na obra podem nos causar desde estranhamento até a mais profunda aversão, como no caso da circuncisão feminina. 

No entanto, é difícil sustentar qualquer argumentação sobre preconceito ou opressão neste romance. Com um narrador bastante passivo, que apenas acompanha os acontecimentos, vemos o confronto entre o Oriente e o Ocidente pela perspectiva de alguém que pouco intervém, apesar de fascinar-se pelas histórias desse embate. Muito além do engajamento partidário, o que a obra revela é um panorama - intenso, complexo, inconciliável - das diversas culturas presentes no Sudão no começo do século XX.

Além do olhar de um africano sobre o homem branco (especialmente o europeu), outro recurso aportado pela escrita de Tayeb Salih é a sua musicalidade. Mesclando diversos elementos do gênero poético à sua escrita, o autor define um estilo único, que nos remete imediatamente à beleza da língua árabe e à importância de bem narrar uma ficção.



terça-feira, 3 de julho de 2018

Gabo, a criação de Gabriel García Márquez (filme de 2015)

Ao contrário do realismo mágico que lhe era tão próprio, o documentário sobre a vida de García Márquez é bastante límpido, sem excessos - na medida do possível no retrato de uma existência intensa e inverossímil como foi a de Gabo.

Habitante de diversas terras, é o povoado da infância que marca fundamentalmente a escrita do autor e que dá origem à mitologia de Macondo. Assim, o filme vai atrás das raízes que levaram aos caminhos dos Cem anos de solidão.

Com poucas mas importantes entrevistas, o longa sabe construir um panorama suficientemente rico da vida de Márquez. É ideal a ponto de não satisfazer totalmente a curiosidade do espectador; ou seja, estimulando-o a encontrar mais respostas diretamente na rica obra do escritor.




segunda-feira, 2 de julho de 2018

Jeremias: Pele (Rafael Calça e Jefferson Costa)

Primeiro (e durante algum tempo, único) personagem negro da Turma da Mônica, Jeremias se resignava a um papel secundário dentro da turma da Rua do Limoeiro. Protagonista pela primeira vez, graças à Graphic MSP, traz para discussão temas importantes concernentes à discriminação étnica.

A graphic novel conta com um enredo interessante, um bom traço e sabe causar reflexão sem soar falsamente moralista. Nesse aspecto, talvez seja o volume mais representativo da coleção lançado até agora. Sem pesar demais a fala do protagonista - que, afinal, é uma criança -, ainda assim os autores puderam trazer, com delicadeza, o retrato de situações de descaso comuns em nosso cotidiano. Desnaturalizando o racismo, a história contribui fortemente para uma abordagem mais profunda da série de readaptações da Turma da Mônica.



Desayuno en Tiffany's (Truman Capote) + Bonequinha de luxo (filme de 1961)

Criação de Truman Capote, a personagem Holly Golightly, imortalizada no cinema por Audrey Hepburn, é uma das protagonistas mais carismáticas e divertidas da literatura moderna. Um dos elementos constitutivos de seu charme é a irreverência, até hoje marcante - afinal, muitas das atitudes de Holly ainda são consideradas tabu nos tempos que correm.

Nem apenas de uma boa criação vive um autor, contudo; se a novela de Capote alcançou tanta popularidade, grande parte disso se deve ao estilo, absolutamente envolvente. Assim como a protagonista gera a curiosidade e quase a obsessão do narrador, nós também, como leitores, nos vemos envolvidos pela prosa agradável e estimulante da obra.

O volume conta com outros três textos (cuja extensão varia entre o conto e a novela): Una casa de flores, Una guitarra de diamantes e Un recuerdo navideño. Ainda que também sejam bem articulados, talvez apenas o último se destaque tanto quanto a história que intitula a obra.

Sobre o filme, é preciso ressaltar que, mesmo com uma alta qualidade, não supera o texto original - ainda que seja um excelente complemento. Alguns elementos de moralidade, ausentes na novela de Capote, aportam uma ideologia muito datada à película. Assim, além de forjar uma história de amor, também exagera estereótipos, como o do ator europeu que imita sarcasticamente um chinês. Talvez a crítica pareça anacrônica aplicada a um filme dos anos 1960, mas é apenas é uma ressalva sobre como Hollywood não soube acompanhar a modernidade do escritor.





segunda-feira, 18 de junho de 2018

Presságio (Hilda Hilst)

O primeiro livro de poemas publicado pela autora tem um título certeiro: pressagia ou antecipa algumas características que se tornariam marcantes na obra de Hilda. Ainda que não tenha um estilo muito consolidado, variando bastante na qualidade e temática dos poemas, alguns dos recursos eternizados pela poeta já começam a se configurar nessa produção inicial.

A presença de um eu lírico feminino que canta o ser amado; a voz crítica e ácida em relação àqueles que não a compreendem; o uso de paradoxos e sinestesias, dentre outros, são elementos que ajudam a enriquecer o volume. Não se trata de um grande conjunto de versos, mas é uma primeira incursão bastante interessante no universo poético.