domingo, 10 de dezembro de 2017

Alguém viu a Mona Lisa? (Rick Gekoski)

Diante de uma capa de best seller (algo como um Guia dos Curiosos sobre o desaparecimento de obras de arte), minhas expectativas eram de uma leitura de mero entretenimento. Entretanto, não contava com o currículo do autor: especializado em comercializar livros e obras raras, Rick Gekoski tem uma visão bastante apurada e crítica sobre o nosso consumo (por vezes, roubo) de arte.

Assim, ainda que seja muito interessante saber alguns dados sobre o desaparecimento de alguns ícones neste universo (como a própria Mona Lisa), este não é o foco principal do livro. Ao longo de seus capítulos, que não precisam ser lidos em ordem sequencial, somos apresentados a vários questionamentos interessantes.

Afinal, o que nos leva a consumir arte? A arte pode ser destruída por motivos políticos? Pode ser a representante de pessoas com moral duvidosa? Há separação entre a vida íntima e a obra produzida? Há um valor agregado em cada obra? Como comercializar o que é, em princípio, impagável?

Nem sempre concordo com as opiniões do autor, mas as perguntas que ele propõe são instigantes. Aparentemente banal, é um livrinho poderoso - ou, ao menos, engajador de boas questões.



A invenção de Hugo Cabret (Brian Selznick)

Ao terminar a leitura de "A invenção de Hugo Cabret", é fácil perceber por que a sua adaptação para as grandes telas foi tão natural e reconhecida. Afinal, a missão deste inovador livro infantojuvenil é ser uma homenagem à sétima arte.

Esta mensagem é notável desde as primeiras páginas. A obra tem uma estrutura muito particular, que busca reproduzir em suas ilustrações o modo de narrar cinematográfico. Assim, entre novela gráfica e livro ilustrado, há um bom casamento da trama com suas imagens.

Os efeitos de zoom, distanciamento, aceleração, cortes - todos estão presentes na composição da obra e talvez sejam o seu ponto alto. Sem eles, a história não deixaria de ser interessante, mas não teria nenhum elemento de destaque. É uma obra que só vale a pena vista em seu conjunto, com cada um de seus recursos em atuação.



O melhor que podíamos fazer (Thi Bui)

A ideia de que só quando nos tornamos pais é que passamos a rever nosso papel de filhos é uma máxima muito difundida. No entanto, trabalhar essa ideia com arte não é uma tarefa fácil e nem desprovida de dor, como nos mostra a vietnamita Thi Bui em uma novela gráfica carregada de memórias e revelações pessoais.

Enquanto revê a história de sua família, a escritora vai resgatando também os laços com a sua nacionalidade vietnamita (ainda que viva hoje nos Estados Unidos). No fim das contas, se não fosse a guerra ou a exploração pela qual seu país passou, sua narrativa pessoal seria totalmente diferente.

Carregada de tons alaranjados, terrosos (em uma referência tanto à questão da terra natal quanto, talvez, do agente laranja), a obra conta com uma trama primorosa. Sem seguir uma linha cronológica, a escritora vai traçando a memória entre idas e vindas, remoendo dores, desvelando impressões. É uma obra sensível, que nos coloca em contato com um Vietnã mais real e com o nosso próprio papel de filhos. Afinal, como cuidar das nossas origens?


La vida es sueño (Calderón de la Barca)

Uma das minhas melhores leituras neste ano, que já acaba, foi "David Copperfield", de Dickens. E ainda é muito vívida para mim a sensação de que, enquanto o lia, pensava: "Como é bem escrito!". Essa impressão de prazer com a linguagem, de deliciar-me com a escrita repete-se aqui nesta obra barroca, de poucas páginas e avassaladora.

Contemporâneo a Shakespeare, o dramaturgo espanhol apresenta alguns elementos da poética que fizeram do bardo inglês tão atemporal: ambientação na corte, figuras nobres representando os grandes dilemas humanos, um texto em versos belamente redigido e máximas sobre a virtude, a coragem, o amor.

"La vida es sueño", peça mais reconhecida de Calderón, traz à tona um tema caro aos barrocos: a fugacidade de nossa existência. E, em uma mistura do carpe diem com a moral cristã, chega à conclusão de que, uma vez que a vida é breve, aproveitemos-la - com justiça, boas ações e inteireza.

Cheia de reviravoltas, aforismos, aventura, esta obra tem o selo da atemporalidade e universalidade; fala daquilo que nos toca enquanto humanos e nos constitui enquanto seres e sonhadores.



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Sol é para todos (Harper Lee) + filme de 1962

Um livro completo: não consigo pensar em uma definição que se ajuste melhor ao incrível "O Sol é para todos", da estadunidense Harper Lee. Aliás, tão completo que esta foi sua única publicação durante a vida (ao menos, única inquestionável - há uma obra quase póstuma que entrou no mercado por puro interesse editorial, o que já é outra história).

A narradora do romance, Scout, é uma garotinha totalmente irreverente e que tem a sorte de haver sido educada em uma casa de pensamento mais aberto; sem vontade nenhuma de tornar-se uma dama, nossa narradora desafia os rígidos códigos de conduta da sociedade do sul dos Estados Unidos dos anos 30. Ela não usa vestidos, briga com meninos no intervalo escolar e chega a salvar a vida do pai de valentões, por meio de um discurso verossímil, inocente e deliciosamente questionador.

Se a narrativa gira em torno de Scout, isso não diminui o papel dos demais personagens, excelentemente construídos: Atticus (o pai), ainda que falho, é quase o exemplo do super-homem cotidiano - aquele que, sem fama nem fortuna, ainda acredita ser seu dever sair na defesa dos humilhados e ofendidos. Jem (o irmão) é um dos melhores retratos da formação do caráter na adolescência. E assim a lista prossegue: a emprega Calpúrnia, o negro acusado injustamente (Tom Robinson), a sociedade conservadora de Maycomb... tudo é descrito sem excesso de detalhes, mas na medida certa para tornar o enredo e os personagens cativantes.

O tema principal da obra é a injustiça, principalmente a racial; entretanto, o livro passeia por diversos assuntos, lançando provocações aqui e acolá. A educação pública, os métodos de ensino, a pretensa caridade dos chás de senhoras endinheiradas, o lobo dentro do homem: esses aspectos são indicados por uma narradora de apenas 6 anos, e sem perder o tom próprio da infância questionadora.

Personagens marcantes, amplo espectro de temas, narração envolvente: uma obra completa, sem mais. E sua beleza é tanta que foi refletida com maestria no cinema: o filme de 1962 é uma maravilhosa adaptação, que consegue ser muito fiel à obra original, sem deixar de convencer enquanto sétima arte. Atuações excelentes em um dos melhores filmes de julgamento que você verá - um complemento ótimo a uma leitura incrível. 



Author: a True Story (Helen Lester)

Este curto livro infantojuvenil narra às crianças como alguém decide se tornar escritor. A autora parte de suas experiências para narrar, de forma bem-humorada, as agruras de quem vive no universo das palavras.

É uma obra simples, despretensiosa, mas que rende uma leitura extremamente prazerosa. O senso de humor da autora é delicioso e nos aproxima, ainda mais, da aventura de ler.


Book: My Autobiography (John Agard)

Uma diagramação excelente e um projeto gráfico lindo vêm a calhar quando o tema da publicação é, justamente, um louvor aos livros. 

"Book: My Autobiography" tem como narrador essa ilustre personagem, que nos acompanha em filas, na bolsa, durante o almoço e mesmo no banheiro: ele, o Livro. Para os bibliófilos de plantão, a leitura é deliciosa.

Com um ar mais infantojuvenil, não há um aprofundamento exaustivo sobre os temas; trata-se mais de uma obra para satisfazer a curiosidade daqueles que querem saber como foram as primeiras encadernações, bibliotecas, sistemas de escrita... no entanto, recheado de ótimas citações e muito bem planejado, o livro é uma boa pedida para qualquer um que tenha paixão pelo mundo das palavras.