domingo, 18 de fevereiro de 2018

Deslocamento (Lucy Knisley)

Relações familiares são complexas, permeadas de emoções e convivências distintas. No universo que abrangem, há personalidades, graus de parentesco e gerações diferentes, que por vezes tentam manter um diálogo para além dos laços de sangue.

É nessa perspectiva de entender melhor o conceito de família que a quadrinista Lucy Knisley nos revela, simultaneamente, dois diários - tanto o dela, relato de um cruzeiro que fez com os avós, quanto o do próprio avô, elaborado na época em que participou da guerra.

Ao reler as entradas redigidas por seu parente, a autora tenta resgatar a história dos avós, de quem eles foram antes de serem tomados pela idade. Nesse exercício de empatia, procura fontes para entender melhor as necessidades dos dois - tanto lavar as suas calças sujas quanto descobrir o porquê de terem arriscado uma viagem mesmo com a saúde tão debilitada.

A história é tocante, e ao revelar sua fragilidade e preconceitos, a escritora causa identificação no leitor. Afinal, quem de nós está preparado para lidar com a senilidade - a própria e a alheia?


A amiga genial (Elena Ferrante)

Elena Ferrante é uma das personalidades literárias de maior destaque dos últimos anos. No entanto, sua produção não é recente; se os seus livros ocuparam o foco da mídia recentemente (estimulando as traduções brasileiras), talvez seja, em grande parte, por seu olhar mais feminino (ista?) sobre o mundo.

Autora polêmica, ela consegue angariar muitos leitores ainda que seus temas sejam bastante delicados. Ao abordar na sua tetralogia napolitana a história de duas amigas, a italiana ora fere os brios dos homens (com retratos bastante intensos da violência masculina), ora destrói o conceito de sororidade (revelando o quanto a relação entre duas mulheres pode ser permeada de amor e ódio).

"A amiga genial", primeiro livro da série, já nos introduz ao universo de Lena e Lila, amigas que vivem um relacionamento bastante destrutivo. Com personalidades opostas, passam grande parte da trama espelhando-se uma na outra, em uma competição constante (com apenas breves momentos de irmandade).

Se a leitura da obra incomoda, por outro lado ela também toca o leitor com a sua sinceridade e verossimilhança. Na sua tentativa de retratar o mundo de forma literária, Ferrante não suaviza o discurso nem as personagens. É um romance tão violento e intenso quanto a amizade que narra.



Funny Face (filme de 1957)

O mito grego de Pigmaleão conta a história de um escultor que se apaixona pela própria obra; como em muitos dos contos dos antigos, essa história traz em seu cerne uma questão universalmente humana. Afinal, como não querer modificar o ambiente e as pessoas que nos cercam para reduzi-los à nossa própria semelhança?

"Funny Face" retoma essa ideia ao apresentar um enredo de transformação - tanto que o seu título traduzido é "Cinderela em Paris". A protagonista da obra, interpretada por Audrey Hepburn, é uma vendedora de livros, interessada em filosofia, que aceita ser modelo para poder assistir às palestras de um professor na cidade-luz. Assim, além de submeter-se a uma carreira desconhecida, adquire trejeitos mais elegantes e requintados para obedecer às expectativas da época.

A jogada de cores da produção em technicolor e a fotografia, somadas a inovações na edição do vídeo, fazem com que o longa permaneça moderno - ao menos na parte técnica. 

Logicamente, o filme traz vários estereótipos machistas, que permitem moldar a personagem principal de acordo com os interesses de seu par romântico nas telas. Ainda assim, é um retrato interessante de como os Estados Unidos viam a intelectualidade da época. Em plena Guerra Fria, qualquer tentativa de discutir a empatia ou a divisão de bens acaba sendo ridicularizada, como se toda a filosofia fosse uma questão inútil. Mal sabiam os produtores da obra que seu mote era tão essencialmente filosófico... puro Pigmaleão.



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

In your eyes (filme de 2014)

Bem avaliado no IMDb e em outros sites mais generalistas de cinema, o filme é um desastre para quem espera o mínimo de conteúdo em uma narrativa. Previsível, meloso, inverossímil, com pontas soltas e diálogos pífios - e, se é bem avaliado, talvez seja o retrato de uma sociedade incapaz de discernir uma boa história de um clichê redundante.


Whiplash (filme de 2014)

O que forma um talento? Ele é intrínseco, natural, ou pode ser desenvolvido? E caso possa ser criado, como fazê-lo? Quais os limites do esforço? Onde acaba o trabalho duro e começa a arrogância?

Whiplash tem como função primordial propor questionamentos, como os citados acima. Quem espera uma história linear, com introdução, desenvolvimento e clímax, pode se decepcionar com o longa - afinal, nele a narrativa traz poucos acontecimentos (e, quando o faz, lida com fatos incômodos para o espectador).

Se considerarmos apenas o objetivo de incitar debates sobre a formação do artista, o filme é bem-sucedido. Seu maior problema, com a sequência de polêmicas que traz, é que apresenta apenas personagens com os quais pouco ou nenhum envolvimento é possível. E, se em um filme sobre arte não simpatizamos com os artistas, um questionamento maior emerge: como gostar da criação artística sem apreciar o elemento humano?



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Contos de amor do século XIX escolhidos por Alberto Manguel

Um dos aspectos mais interessantes na leitura de uma antologia ampla e variada de contos é o primeiro contato com diversos autores que ainda não tinham sido contemplados em listas habituais de livros por ler. Quando o organizador tem o calibre de Alberto Manguel (bibliotecário e grande conhecedor de livros), a tarefa se torna ainda mais prazerosa.

Por meio desses contos de amor, tive ótimas primeiras impressões especialmente de Henry James, Nathaniel Hawthorne (de quem só havia lido uma impressionante adaptação de "A mão do macaco"), Pirandello e um atualíssimo Marquês de Sade. De toda a antologia, os contos desses quatro autores foram os que mais me surpreenderam - tanto pela minha estreia no universo literário de cada um quanto pela construção do conto em si.

Digna do tema a que se propôs, a antologia conta com histórias bastante melosas, "romanções" típicos do XIX - é preciso estômago para tanto mel, mas, na maioria da vezes, vale a pena o esforço. Apenas dois contos foram de leitura mais sofrida (coincidentemente ou não, dois dos mais extensos dentre os selecionados): o de Robert Louis Stevenson e o de Edith Wharton. Ainda que seja visível o motivo da inclusão de cada um dos autores, talvez fosse possível ter selecionado narrativas um pouco menores.

Outro ponto em que o livro fica a dever é a falta de um prefácio ou posfácio. Afinal, a escolha de um organizador renomado justificaria algum texto teórico para embasar melhor a antologia. Mesmo com esses pequenos contras, no entanto, é um livro excelente; em suma, um amorzinho.


domingo, 21 de janeiro de 2018

Expurgo - Sofi Oksanen

"Expurgo" é um livro que dificilmente entraria na minha lista habitual de leituras - e, se passou a fazer parte dela, foi em função do meu projeto "Escritoras do Mundo". Para dar voz a uma escritora finlandesa, apostei na obra (incentivada também por estimulantes blurbs e um projeto gráfico com capa intrigante). 

Inicialmente, meu contato com a narrativa foi desestimulante. O início de "Expurgo" é lento, com citações pouco compreensíveis e muitas descrições, por vezes de viés escatológico. Se insisti na obra, foi em função do meu projeto - que, mais uma vez, mostrou ser uma ótima fonte para a descoberta de vozes literárias desconhecidas.

A aparência de estranhamento da narrativa de Oksanen vai sendo mais compreensível ao longo da obra. É preciso um pouco de paciência para enfrentar as descrições iniciais, que vão levando, aos poucos, o leitor à frente de um quebra-cabeça magistral. A simulada desconexão entre partes da obra e o estilo de narrar são peças importantes na resolução dos mistérios que compõem o fluxo da narrativa.

Ademais do aspecto de thriller literário, extremamente bem-feito, o livro é uma excelente porta de entrada para entender um pouco mais da história dos países nórdicos, principalmente os que compuseram a URSS (como a Estônia). 

Diferente de tudo o que já havia lido, o romance se centra na relação de amor e ódio de duas irmãs durante o regime comunista, com um recorte histórico que se estende até o tempo atual. O estilo da autora, voltado para um escatológico quase minimalista (na sua fixação por moscas e pequenos insetos) dá o tom de uma trama incômoda, que veio para provocar.