segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A vida secreta dos grandes autores (Robert Schnakenberg)

Todo ilustrado pelo cartunista Allan Sieber e com uma capa que brinca com a ideia dos tabloides de fofocas, em princípio é difícil levar esta obra a sério. No entanto, usei como termômetro da confiabilidade da leitura as informações que já possuía.

Sobre Tolstói, por exemplo (sobre quem já li uma biografia de quase 600 páginas), nenhum dado oferecido por essa biografia divertida me pareceu demasiado exagerado ou irreal. Tomando este russo como parâmetro, a obra, ainda que tenha sim o propósito apelativo, não deixa de ser informativa.

Para quem gosta de literatura é quase um fan service. Para quem não gosta, é um bom meio de descer os escritores do pedestal e torná-los mais próximos, reais e falhos (se não na escrita, ao menos como humanos).





domingo, 15 de outubro de 2017

Jorge de Lima: vida e obra (Povina Cavalcanti)

Já é frase repisada (e com autoria perdida) que a estrada para o inferno está pavimentada com advérbios. Povina Cavalcanti não só segue fielmente este preceito, como reforça todas as veredas de seu caminho com adjetivos bizarros, típicos de um lambe-botas literário e católico carolinha.

O livro biográfico vale apenas pelas citações: trechos escritos por Jorge de Lima ou sobre ele. Todo o resto, articulado pelo cunhado do famoso poeta, é absolutamente desprezível, absurdamente mal escrito, um exemplo do que não se deve fazer em crítica literária de qualquer ordem. Redações de alunos semialfabetizados são mais bem construídas.


Dangal (filme de 2016)

Os fãs de filmes indianos já se acostumaram à abertura clássica dessas produções: o print de uma ficha com os dados técnicos da produção (o que talvez seja um retrato da burocracia que, tal como aqui, permeia este país de dimensões continentais). No entanto, Dangal oferece uma grande surpresa, logo no início: o castelinho da Disney anuncia que essa produção é de Bolly e de Hollywood - um misto até então raro.

O que veio do Ocidente para o Oriente de positivo? A película recente de Aamir Khan revela uma nova temática, centrada na força e no poder feminino. Em um país machista como a Índia (uma das campeãs de estupro do mundo), esse tipo de mentalidade - ainda que importada - é sempre bem-vinda. As produções de Bollywood atingem milhões - que seja, então, para divulgar respeito.

Por outro lado, a influência ocidental nesta peça indiana acabou confluindo para pasteurizar um pouco mais o seu formato, seu enredo, seu estilo. Trata-se de um filme mais curto que o usual, com menor mescla de gêneros narrativos, um tanto previsível. Se pensarmos que Bollywood é a terra cinematográfica das reviravoltas, o fato é que a produção acaba perdendo em pelo menos um aspecto fundamental para a constituição de sua própria identidade.

Aamir Khan está, no entanto, maravilhoso mais uma vez (e passando por uma transformação física surpreendente para o papel). A história entretém, diverte e comove - ainda que sem garantir profundidade ao enredo.

Adeus, Europa (filme de 2016)

Para quem nada conhece da obra ou da vida de Stefan Zweig (caso no qual provavelmente me incluo, dado que apenas comecei a ler a "Autobiografia: o mundo de ontem"), o filme sobre a vida do escritor austríaco talvez não seja nada mais do que um longa interessante.

Não se trata de uma produção intrincada, fragmentária ou que pressuponha conhecimentos específicos de seu espectador; ainda assim, não tem o objetivo de ser didática. Dividida em algumas cenas, nos leva a acompanhar a vida do escritor, refugiado do nazismo, no Brasil - até seu suicídio, em 1942.

O panorama que se constrói é o de um mundo em derrocada, no qual resta pouca ou nenhuma esperança. Com mais de 60 anos, Zweig não esperou pelo desenrolar dos eventos trágicos da guerra. Talvez sem forças para recomeçar mais uma vez (afinal, ele também sobreviveu ao primeiro grande conflito europeu), o literato optou pela solução talvez mais desesperada, talvez mais racional.

É uma obra que prende a atenção e que desperta o interesse sobre Zweig. Além disso, consegue ser um retrato da desilusão que permeava a época. Longe de ser um filme imperdível, é bastante razoável.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Literatura Comentada - Dias Gomes

Uma das séries mais didáticas sobre livros e autores, talvez o único grande defeito da coleção Literatura Comentada seja a sequência de spoilers. Ao apresentar um recorte da obra do autor retratado, as análises pecam ao revelar demais do enredo - o que sempre pode comprometer o interesse do leitor.

Ainda assim, o volume sobre a produção de Dias Gomes é muito interessante. O texto teórico ao final, ainda que curto, é bastante revelador. Outro ponto que merece destaque é a comparação feita entre os escritos televisivos e os escritos teatrais de Gomes, criando um bom contraponto entre esses dois universos.


domingo, 8 de outubro de 2017

Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos) + filme de 1984

A ditadura de Vargas não costuma suscitar tantas críticas quanto os governos pós-1964; atenuado por epítetos como "o pai dos pobres", esse período histórico brasileiro não é o principal alvo de críticas ferrenhas. Talvez o mais forte exemplo de libelo contra essa tentativa de fascismo brasileiro seja o romance "Olga" de Fernando Morais, posteriormente adaptado para o cinema.

Em "Memórias do Cárcere" temos, talvez, o mais potente documento contra o varguismo. Graciliano Ramos, então escritor quase iniciante, foi preso sem passar por julgamento. Encarcerado por mais de um ano, foi transferido para prisões em diferentes locais e de distintos tipos, chegando a compartilhar a cela com ladrões, assassinos e bandidos de todos os feitios.

Conhecido por seu cuidado constante com a escrita e sua insatisfação com o resultado final do trabalho, é difícil ponderar o que Graciliano pensaria da publicação deste seu livro inacabado. Última obra de sua vida, as memórias trazem o tom de ficção e confissão do autor em seu mais alto grau - afinal, lidamos com o texto em seu formato bruto, quase sem revisão.

É interessante conhecer o processo de escrita para entender melhor o estilo dessa obra, destoante de boa parte dos trabalhos anteriores de Ramos. Segundo seu filho Ricardo, o livro passou por um processo forte de censura dentro do Partido Comunista, com políticos diversos limando os dizeres de Graciliano, controlando o que poderia ou não vir a público.

Todos esses fatores - pressão do partido, falta de um fecho, aspecto de inacabado - tornam a leitura um tanto penosa. É uma obra excelente, um documento histórico de força, mas bastante cansativo. Graciliano (como sempre) não passa a mão na cabeça do leitor - os aspectos mais sórdidos da prisão são descritos com detalhes bastante incômodos. É de revirar o estômago.

Ademais, acompanhamos a mente do autor-protagonista durante seus meses na prisão. É chocante ver o quanto ninharias causam fortes atritos em um contexto de violência e opressão. Todos esses aspectos são retomados no filme homônimo de 1984, de Nelson Pereira dos Santos.

O diretor não economiza na narrativa, o que gera um longa-metragem de mais de 3 horas. A atuação de Carlos Veneza consegue segurar o interesse do espectador, mas, no geral, também é uma obra muito difícil de ser assistida. O retrato da violência é menos intenso do que no livro, mas é o suficiente para chocar quem o assiste.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O pagador de promessas (Dias Gomes)

O teatro de Dias Gomes, muitas vezes, lida com personagens arquetípicos na construção do drama. Se, por um lado, esse recurso pode ser tachado de simplista, por outro é inegável que ele dá dinâmica e fluidez à narrativa. Com personagens que são fáceis de entender, cujas motivações são óbvias para o leitor/espectador, toda a surpresa fica por conta do desenrolar dos fatos - arte na qual Dias Gomes, novelista de mão cheia, é versado.

O protagonista de "O Pagador de Promessas", Zé do Burro, causa comoção quase imediata do público por sua inocência pueril. No entanto, nas falas de um homem sem estudos e sem muita malícia, o autor da peça vai inserindo fortes questionamentos à Igreja e à autoridade. Não é à toa que sua exibição foi censurada durante boa parte da Ditadura Militar.

Livro para pegar gosto pela coisa, é uma excelente indicação para superar os traumas de quem não gosta de ler. E para quem gosta, é um prato cheio.