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Mostrando postagens de abril, 2020

Estação Atocha (Ben Lerner)

Primeiro romance de um poeta, o grande diferencial de Estação Atocha  são as suas ricas reflexões sobre a linguagem. Do ponto de vista do enredo, pouco acontece; e, ao contrário dos nadas tchekhovianos, o que justifica a falta de eventos essa trama é a consciência conturbada de seu protagonista, que não consegue apreender quase nada do que se passa ao seu redor. O enredo centra-se na figura de um poeta estadunidense que se muda para a Espanha com o objetivo de produzir um trabalho artístico de relevo. Todavia, durante quase todo o romance o personagem principal encontra-se impossibilitado de narrar o que acontece: ora porque está totalmente drogado, ora porque não consegue entender espanhol, inviabilizando toda comunicação. Conforme o protagonista adquire consciência maior do idioma e ser mais participativo dos eventos, o romance perde um pouco em força. Ainda assim, é uma obra de força, com pensamentos poderosos sobre a língua, a comunicação, a tradução e os porquês da literatura.

Forrest Gump (filme de 1994)

Apesar das constantes reprises na televisão, nunca havia assistido a mais do que pequenos excertos de Forrest Gump . Ao tomar contato com o filme inteiro quase 30 anos após a sua estreia, acreditava que poderia me deparar com uma obra muito vinculada à sua época, portadora de uma visão de mundo que me pareceria sem sentido. No entanto, o filme continua funcionando muito bem - mesmo para quem até então não o conhecia. É muito comum toparmos com nossos preconceitos de época ao assistir a produções menos recentes; contudo, é justamente neste ponto que Forrest Gump  me pareceu um filme bastante vanguardista. Com um protagonista que não de adéqua às regras sociais (e que talvez se identifique dentro do espectro autista, ainda que sua condição nunca seja nomeada), o longa consegue passar uma visão bastante sensível da história estadunidense ao longo de 3 décadas. Provido de inocência, o protagonista oferta uma visão bastante inusitada de seu tempo. É quase como se fôssemos conduzidos, en

Roseira medalha engenho (Jefferson Costa)

Ambientado no Brasil profundo, "Roseira medalha engenho" é uma obra que vai além de resgatar a genealogia do próprio autor. Nela, são desenvolvidas histórias simples, mas que estão inscritas em um panorama de transformações sociais ressignificadoras - como o advento da industrialização no campo, a favelização das cidades, o êxodo rural. Ao chegar ao final, vemos o quanto a narrativa está bem amarrada - com cenas que se interconectam e um desfecho com cara de obra cinematográfica. Entretanto, tive dificuldade de acompanhar a narrativa por não ter gostado do traço. Durante boa parte da história, não havia percebido quem eram os protagonistas (já que a cada cena são desenhados de forma bastante diferente). Ainda assim, vale a leitura.

Amora (Emicida)

O lançamento do último álbum de Emicida ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo, criando uma mistura irreverente entre a arquitetura elistista do espaço e a música rap . No entanto, ao escutar às canções com mais calma, vemos que essa mescla não foi tão profunda - afinal, os limites entre as últimas produções do cantor e a MPB são bastante difusos. Para desnivelar ainda mais essa balança, há o fato de que muitas das composições têm letras bastante suaves de um pai coruja. Se no álbum a corujice parece um pouco fora de lugar, o mesmo não se aplica a esse livro infantil. Aqui, Emicida encontra um espaço válido para declarar seu amor pela filha, sem fugir de debates sociais importantes - como racismo e diversidade religiosa.

Uma pistola em cada mão (filme de 2012)

Apesar do título de faroeste, este é um filme que trabalha justamente a fragilidade do sexo masculino. Sua estrutura narrativa é composta de cenas breves, nas quais os protagonistas revelam sua incapacidade de lidar com relacionamentos, frustrações, carreira, vícios.  O entrelaçamento entre as distintas histórias só ocorre no fim (e, ainda assim, de maneira parcial). Dessa maneira, a produção tem um aspecto mais leve, por mais que tente apresentar personagens complexos. Por ter pouco tempo dedicado à revelação dos dramas de cada um, não tem como proposta aprofundar a discussão sobre as falhas masculinas; trata-se mais de um panorama entre melancólico e divertido.

Corpus delicti: um processo (Juli Zeh)

Na busca de livros que ajudassem a pensar o mundo pós-Covid, escolhi esta obra (que já habitava minha estante há um tempo). Se, por um lado, a opção foi adequada em termos de linguagem (é uma escrita bastante fluida, quase de best-seller), por outro não me trouxe muitas novidades. Frente ao nosso cenário distópico atual, é preciso um romance de muito fôlego para ser capaz de tratar temas complexos com o mínimo de verossimilhança. O mundo retratado pela alemã Juli Zeh é aquele no qual a Ciência venceu. Assim, os seres humanos não são mais definidos em razão de suas crenças ou tipo de pele - mas sim por seu histórico de saúde, que é minuciosamente controlado pelo governo. Não há espaço para doenças e tampouco para opções pessoais que ameacem a sociedade. É um cenário em que o coletivo se sobressai e as paixões individuais são ignoradas. Se o mote é bom, o mesmo não se aplica ao desenvolvimento do enredo. Diálogos fracos, personagens pouco elaboradas e uma trama confusa fazem que o li

Um banho de vida (filme de 2018)

Os estereótipos não são capazes de dar conta da complexidade de uma cultura; ainda assim, há aspectos que, por vezes, se sobressaem na produção artística de um país. A mistura bem dosada de melancolia e humor é um dos traços que mais me encantam em alguns filmes franceses (como no icônico Amélie Poulain e nesta obra aqui comentada). As cenas inicias de "Um banho de vida" empregam um narrador astuto e uma sequência de imagens enigmática, o que já bastou para manter meu interesse por toda a narrativa. Com um começo mais focado nos dramas pessoais de cada personagem, acompanhamos a desventuras de membros de uma equipe de nado sincronizado masculino - esporte tão relegado quanto a existência de cada um deles. Aos poucos, somos encaminhados a um final mais esperançoso. Não é, dessa forma, uma produção que abra mão de clichês, mas tampouco está interessada em construir finais felizes inquestionáveis. É um belo agridoce.

Bone 1, 2 e 3 (Jeff Smith)

"Bone" ficará marcado como a minha leitura antipandemia. Com um cenário épico e um traço incrivelmente leve, é difícil não se deixar simplesmente deslizar pela obra de Jeff Smith - mesmo quando o contexto é tão desfavorável a nos deixar relaxar em uma boa leitura. Marcada pela aventura, a saga "Bone" também está repleta de boas piadas, momentos de drama e de questionamentos. Ainda que o desenho fofinho possa enganar à primeira vista, é uma novela gráfica bastante complexa e que sabe como criar personagens marcantes. Gostei bastante dos dois primeiros volumes, mas não tive a mesma sensação de satisfação com o último. Ainda que o desfecho da história seja muito maduro e evite clichês, a aparição de alguns deuses ex machina incomodou um pouco. No entanto, mesmo as falhas pontuais não tiram o valor do quadrinho.

Debate pela liberdade (filme de 2007)

Filme lançado dois anos após ter me tornado professora, é uma das obras de arte que desde sempre me ajudaram a nortear e repensar minhas práticas. Depois de um intervalo relativamente longo sem vê-lo, minha sensação ao reassistir ao longa foi de redescoberta e de confirmação. No meu primeiro contato com a produção, havia ficado fascinada com o papel do professor interpretado por Denzel Washington. Hoje, consigo rever seu posicionamento em sala de aula com várias ressalvas - que já fazem parte da estrutura da obra, mas que haviam passadas despercebidas por mim anteriormente. Ainda que esteja longe de ser o professor ideal, contudo, o protagonista traz ao debate questões indispensáveis para pensar a prática da oratória. Os demais contextos que o circundam - como a questão racial e a simpatia pelo socialismo - só incrementam o rico subtexto deste filme excelente.